Filmes clássicos japoneses

7 Filmes clássicos japoneses que você deveria assistir

O Cinema oriental, bem como o pensamento oriental como um todo, muitas vezes é visto com olhar de estranheza por parte daqueles que o desconhecem. Além dos preconceitos típicos, tais como: “Filmes orientais são não prestam“, “O cinema japonês é ruim” ou “Quem vai assistir esses asiáticos?“, vira e mexe aparece alguém colocando um defeito em algum aspecto cultural que não compreendeu. De fato, o cinema oriental, especificamente o asiático, é permeado de aspectos histórico-culturais que são estranhos para aqueles que vivem do outro lado do Meridiano de Greenwich.

Realmente não é difícil encontrar filmes que terminam em tragédias, em ações inexplicáveis, heróis que não sofrem quase nenhuma mudança ou transgressores que não sofrem as devidas punições. Com certeza, o pathos (o drama humano) dos filmes asiáticos passa, muitas vezes, bem longe dos nossos. Talvez um dia eu escreva algum artigo mais detalhado e rebuscado sobre o assunto.

Enfim, dentro desse vasto mar que é o cinema asiático, faço um destaque para produções clássicas oriundas de um arquipélogo muito conhecido: o Japão. Mais do que animes, mangas, lolitas, hentais e demais aspectos da Cultura Pop, o Japão também é um berço de tradição – além de ter assimilado muito das técnicas e artes de outros países e mesclado com suas tradições, o que incluiu o cinema. O cinema japonês é vasto, repleto de obras memoráveis [e outras nem tanto assim].

Com o intuito de introduzir os iniciantes ao Cinema Japonês, principalmente aos clássicos, preparamos uma pequena lista de 7 Filmes clássicos japoneses que você deveria assistir:

7. Portal do Inferno (1953)

Filmes clássicos japoneses

Filme belíssimo de Teinosuke Kinugasa, Portal do Inferno ou Portão do Inferno (地獄門 – Jigokumon) ganhou o Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Figurino e Filme Estrangeiro.

A trama do longa-metragem se passa em 1159, no Japão feudal, em Kyoto, durante a famosa Era Heian. Há uma rebelião contra o imperador, uma tentativa de golpe contra a realeza nipônica. Por isso, um plano é armado para que a família real possa fugir em segurança. Lady Kesa (Machiko Kyo), uma cortesã, se oferece como voluntária e se faz passar pela se faz passar pela irmã do imperador, para que a família real possa ficar a salvo. Um samurai, Morito Enda (Kazuo Hasegawa), ajuda Kesa, se apaixona por ela e pede como recompensa o direito de casar-se com a moça. O problema é que ela já é casada! E Enda não desiste, chegando a desafiar o marido de sua amada para que a deixe, o que vem a trazer trágicas consequências para os envolvidos.

A beleza do longa-metragem é deliberadamente inspirada nos teatros Noh e Kabuki, sendo um deleite visual. As cores são utlizadas de maneira dramática, graças a fotografia de Kohei Sugiyama, acentuando com delicadeza os temas tradados no filme: valores morais, amor desmedido, lealdade, além da organização social que envolvia os papéis de homens e mulheres no Japão feudal.

Portal do Inferno é, em poucas palavras, uma belíssima história trágica de obsessão amorosa.

6. Harakiri (1962)

Filmes clássicos japoneses

Impressionante” foi a palavra que surgiu em minha mente após assistir Harakiri (腹切 – Seppuku) pela primeira vez.

Dirigido por Masaki Kobayashi, o filme se passa no século 17, na pacífica Era Tokugawa, em que o Japão não estava mais em guerra e o país era administrado com firmeza. Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai), um samurai desempregado, bate à porta de uma poderosa família samurai. Recebido por Kageyu Saitou (Rentarou Mikuni), o chefe do clã, Tsugumo lhe pede permissão de cometer suicídio por harakiri em sua residência – tudo porque um ronin (samurai sem mestre) uma vez havia tentado o harakiri, recebeu uma quantia pelo clã samurai para não cometer o ato e a história se espalhou. Com isso, muitos ronins e outros homens começaram a pedir o suicídio ritual apenas para ganhar uma graninha. Só que uma hora o pessoal cansa de dar dinheiro para o povo, né? Ok. na tentativa de dissuadir Tsugumo, Saitou lhe conta a história de Motome Chijiwa (Akira Ishihama), um samurai que tentou cumprir o mesmo ritual.

Uma das características dos filmes de Kobayashi são os personagens anti-autoritários, aqueles que se rebelam contra o sistema vigente. Em Harakiri isso não é diferente. Além de mostrar a estratificação social da época, o filme coloca em voga o tão reverenciado e adornado Código de Honra Samurai (o Bushido), mostrando outra face da classe samurai da Era Tokugawa: como apenas mais uma classe nobre, igual às outras, denunciando a hipocrisia e autoritarismo de muitos clãs samurais.

Kobayashi consegue magistralmente segurar a tensão criada durante filme inteiro até o Terceiro Ato, que por si só já é uma obra de arte. Aliás, o filme todo conta com planos belíssimos. Uma obra para tocar coração e alma.

-> Harakiri ainda ganhou um remake, em 2012, pelas mãos de Takashi Miike.

5. Crisântemos Tardios (1939)

Dirigido por Kenji Mizoguchi, Crisântemos Tardios (残菊物語 – Zangiku Monogatari), se passa no Japão do século 19. O jovem ator de treatro kabuki, Kikonosuke Onoe (Shoutarou Hanayagi), é considerado um preguiçoso e sem grandes talentos para a arte. Nascido em uma família tradicional, ele é bajulado pela fama que tem devido a seu pai, mas pelas costas ele é ridicularizado pelos amigos. A coisa piora quando ele se apaixona pela babá do seu irmão, Otoku (Kakuko Mori), sendo repreendido por todos por causa disso. Com sua família contra a união dos dois, eles são expulsos da casa onde vivem, e ela passa a devotar sua vida a ajudá-lo na busca pelo reconhecimento da sua arte. Só que ao longo do demorado caminho, ela arruina sua saúde e acaba morrendo em cima de uma cama, enquanto ele alcança o sucesso em um triunfal desfile de barco por Osaka.

crisantemos-tardios

Um dos melhores filmes sobre o teatro japonês, quiçá o melhor, Crisântemos Tardios também explora alguns aspectos cruciais de sua cultura, tais como: a pressão social dos pais exercida sobre os filhos; a relação grupo X indivíduo, que muitas vezes esmaga o indivíduo em prol da harmonia do grupo; além do peso de seguir a tradição.

Mizoguchi, como em muitos de seus filmes, dá uma certa liberdade e força às personagens femininas – o que não era comum na época (principalmente ao se falar do Japão). Ele aprensenta um filme sobre as tensões entre vida e representação, ou melhor, sobre os limites tênues e sombrios entre a criação e a vida. Romântico, tocante e sensível, Crisântemos Tardios possui um desfecho simplesmente poético.

4. Os Sete Samurais (1954)

De Akira Kurosawa, Os Sete Samurais (七人の侍 – Sichinin no Samurai), é considerado um dos difusores do cinema japonês pelo mundo afora. O longa-metragem está ambientado no Japão do século 16, após o Sengoku JidaiKambei (Takashi Shimura), um velho e experiente ronin sem dinheiro, chega em uma aldeia indefesa que é constantemente atacada por saqueadores assassinos. Cansados de tantos ataques, os moradores do vilarejo pedem a ajuda de Kambei, fazendo com que ele recrute seis outros ronins, que concordam em ensinar os habitantes como devem se defender em troca de comida. Um dos ronins, Katsushiro (Ko Kimura) se apaixona por uma das mulheres locais, embora os outros samurais mantenham distância dos camponeses. O último dos guerreiros que chega é Kikuchio (Toshiro Mifune), que finge estar qualificado, mas que na realidade é o filho de um camponês que almeja aceitação.

Filmes clássicos japoneses

As três horas de Os Sete Samurais não são sentidas. Tecnicamente, parecem ser as horas mais rápidas que o espectador pode sentir passsar – não porque os acontecimentos se desenrolam rapidamente, mas porque Kurosawa consegue prender o espectador à trama facilmente. Os personagens são cativantes, especialmente Kikuchio, que faz a figura do bufão e anti-herói.

Em poucas palavras, Os Sete Samurais é uma obra-prima. A sua força e a influência é ampla: desde a Star Wars, aos filmes de Faroeste (Western) e até Quentin Tarantino, muita gente bebeu de sua fonte. Certamente, um filme “obrigatório”.

3. Era uma vez em Tóquio (1953)

Filmes clássicos japoneses

Filme de Yasujirou Ozu, Era uma vez em Tóquio (東京物語 – Tokyo Monogatari) traz a história de um casal de velhinhos, Shukishi Hirayama (Chishu Ryu) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama), que viaja a Tóquio para visitar os filhos que não veem há alguns anos. Porém, os filhos já estão estabelecidos na vida, estando todos muito atarefados que não têm tempo para dar-lhes atenção. Sendo assim, quando o casal de velhinhos chega, apesar da celebração, é, aos poucos, deixado de lado pelos filhos que mantém seus compromissos com os respectivos empregos e tarefas diversas. Quando sua mãe fica doente, os filhos vão visitá-la junto com a nora de seu falecido filho mais novo, e é aí que complexos sentimentos são revelados entre eles.

Ozu é conhecido por ser um dos maiores representantes do cinema clássico japonês. Uma de suas marcas eram os enquadramentos fixos que duravam quase 20 minutos. Claro, essa marca também está presente em Era uma vez em Tóquio – a câmera é alheia ao que rola em cena, estando parada como uma ferramenta a mostrar ao espectador o que acontece, dando espaço para os riquíssimos diálogos e para as ações que ali se desenrrolam.

Um filme simples, mas absurdamente comovente, no qual Ozu consegue colocar complexidade dentro de tanta simplicidade: ao mesmo tempo que o filme versa sobre acontecimentos dentro de uma família, ele também é um estudo profundo sobre a sociedade japonesa e sua crise de identidade no período pós-guerra.

2. As quatro faces do medo (1964)

Ah, terror japonês não poderia faltar nesta lista!

Filmes clássicos japoneses

Outro filme de Masaki Kobayashi, As quatro faces do medo (怪談 – Kaidan) é um longa-metragem contado em quatro histórias: Na primeira, “O cabelo negro” (黒髪 – Kurokami), um samurai, que vive em Kyoto, divorcia-se da mulher que ama para se casar com outra pelo dinheiro; na segunda, “A mulher da neve” (雪女 – Yukionna), um lenhador encontra mulher congelada e o espírito dela aparece para revelar detalhes de sua vida, pedindo a ele que jamais conte a ninguém – mas dez anos depois ele esquece a promessa; na terceira, “Hoichi – o sem orelha” (耳無し芳一の話 – Miminashi Hōichi no hanashi), o jovem e cego Hoichi vive num monastério e passa a cantar para fantasmas do império; e a última, “Em uma xícara de chá” (茶碗の中 – Chawan no naka) fala de um escritor que vê uma misteriosa face refletida em uma xícara de chá.

Kobayashi apresenta uma fotografia que conduz a um clima onírico bem condizente com o tom dos 04 contos apresentados. Literalmente um show técnico, uma obra de encher os olhos.

Além disso, o As quatro faces do medo foi responsável pela introdução da mitologia japonesa no mundo ocidental, já que as histórias de horror japonesas são fortemente influenciadas pelas tradições budistas e xintoístas (espíritos vingativos, almas torturadas, raiva, amor obssesivo, remorso, culpa, simbolismos morais, etc.), ou seja, os antecessores das modernas Sadako e Kayako (O Chamado e o Grito).

1. Rashomon (1950)

Mais um do mestre Akira Kurosawa, Rashomon (羅生門) apresenta em sua trama um lenhador (Takashi Shimura), um sacerdote (Minoru Chiaki) e um camponês (Kichijiro Ueda) que, durante uma forte tempestade, procuram refúgio nas ruínas de pedra do Portão de Rashomon. O sacerdote diz os detalhes de um julgamento que testemunhou, envolvendo o estupro de Masako (Machiko Kyou) e o assassinato do marido dela, Takehiro (Masayuki Mori), um samurai. Em flashback é mostrado o julgamento do bandido Tajomaru (Toshirou Mifune), onde acontecem quatro testemunhos, inclusive de Takehiro através de um médium (Fumiko Honma). Cada um tem uma “verdade” acerca da história, entrando em conflito com os outros.

Filmes clássicos japoneses

Mesmo que Os Sete Samurais tenha elevado status de popularidade cinema japonês como um todo, foi Rashomon que levou Kurosawa a ser conhecido pelo ocidente, ou seja, quem lhe abriu as portas (era para ser uma piada com o ideograma de mon – 門 – porta, mas deixa para lá).

Dada a popularidade do filme, a palavra Rashomon inclusive se tornou um sinônimo para qualquer situação na qual a veracidade de um evento é difícil de ser verificada devido a julgamentos conflitantes oriundos das diferentes testemunhas. Até a Psicologia tomou emprestado o termo, criando o “Efeito Rashomon“: em que cada pessoa descreve uma situação da qual não se pode saber o que de fato aconteceu, devido aos diferentes julgamentos e pensamentos das pessoas que a presenciaram – já que cada um interpreta o ocorrido de forma bastante pessoal.

_______

Primeiramente, gostaria de me explicar por um deslize conceitual que foi cometido deliberadamente neste post: a suposta diferenciação entre Ocidente X Oriente. Concordo plenamente que esta diferenciação, por muitas vezes, coloca culturas e países tão distintos sob o mesmo véu do “orientalismo” – ou seja, aquilo é que exótico, estranho e admirável é chamado simplmesmente de Oriente. No entanto (e infelizmente), na ausência de uma definição mais clara ou adequada, dedici utilizá-la neste post.

Segundo: não foram citados aqui filmes de movimentos específicos do Cinema Japonês, como a Nouvelle Vague (Nuberu Bagu) ou os filmes do movimento Eroguro, por exemplo. Como o intuito é introduzir o leitor / espectador não experimentado ao Cinema Japonês, optou-se por uma seleção dos filmes mais “falados” (ou os “filmes de exportação”), assim por dizer. Também não incluímos as animações, para as quais haverá um post especial.

Portanto, sinta-se à vontade para fazer algum comentário, crítica útil ou sugestão.

Nos vemos na próxima!