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Coringa e suas metamorfoses ambulantes

Alguns devem ter se questionado diante do título: Mas o que diabos o Coringa tem a ver com Raul Seixas? É do Coringa do Batman que você está falando mesmo? Porque se for, ele não tem nada a ver com aquele clima paz e amor ao qual o cantor brasileiro se propôs ao longo da sua carreira. Calma aí galerinha, que já vou explicar. Lembram da letra daquela canção? Era mais ou menos assim: Eu prefiro seeeeerrrr, essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! Do que ter aquela velha opinião formada sobre tuuuudooo.. É, acho que até aqui está bom. E aí? Ainda não conseguem ligar a música ao objeto que aqui será estudado? Bem, então farei uma pergunta que ajudará a elucidar o enigma por trás do título: qual personagem das telonas e das telinhas já teve mais de uma metamorfose? O Coringa, claro! Quem mais seria? Encarnado por diversos atores e com propostas diferentes, o palhaço do crime é uma dessas figuras que não conseguimos definir acertadamente, tendo uma encarnação nova a cada época. E é aproveitando a sua mais recente aparição na pele de Jared Leto, que irei fazer uma retrospectiva do personagem para que possamos relembrar algumas de suas transformações.

Ah, e antes de começarmos, a ideia aqui não é falar se Coringa A é melhor do que B ou C; Não, longe disso. Proponho uma reflexão a respeito de como cada interpretação do personagem, de uma forma ou de outra, dialoga com o momento histórico, social, em que ela foi proposta. Esclarecido esse ponto, também afirmo que não sou senhor de nenhuma verdade. Neste texto estará expressa a minha visão sobre o assunto. Se você, querido leitor, tiver uma opinião diferente, ótimo, coloque-a nos comentários para que possamos debater a respeito, desde que o seu comentário não venha a ferir a minha imagem com insultos desnecessários. Tudo certo até aqui? Bom. Então, continuemos!

Por que o personagem muda tanto? Por que não é sempre o mesmo? Bom, podemos argumentar que a realidade temporal corrente há de influenciar na leitura que fazemos do símbolo que o Coringa é. Pois, ao meu ver, ele não é apenas um vilão do Batman. Não, é mais do que isso. É a loucura em uma de suas muitas corporificações. O caos encarnado na figura de um homem. E como dito no parágrafo anterior, cada época nos brinda com uma leitura nova do símbolo Coringa. Falando num português mais claro, cada época tem o Coringa que merece. Lembremos do queridíssimo Cesar Romero, o primeiro a encarná-lo nas telas. Aquela versão do icônico vilão, tendia mais para o lado palhaço, no sentido literal da palavra, do que para o psicótico. Seus planos eram tão bobos… Roubar as habilidades do melhor surfista da região, sabotar um jogo de basquete. Nada de muito brilhante, não é?

O Coringa mais palhaço dentre todos os Coringas. Detalhe para o bigodinho mal encoberto pela maquiagem.
O Coringa mais palhaço dentre todos os Coringas. Detalhe para o bigodinho mal encoberto pela maquiagem.

Anos 60. Era uma época em que a moral restringia o conteúdo produzido para os cinemas e para a TV. Os heróis ainda não tinha sido lidos como personagens complexas, apenas de maneira ingênua; como sujeitos fantasiados e que tinham como objetivo defender os fracos e oprimidos. Eram eles a personificação crua da bondade. E os seus vilões, emulando essa premissa, eram também uns sujeitos fantasiados que só tinham como objetivo único, complicar ao máximo a vida dos mocinhos. Eram maldade misturada a um quê de inocência. Encenavam a eterna luta do bem contra o mal em sua roupagem mais simplista. E o Coringa de Cesar Romero ia por este caminho: apenas um palhaço pintando o sete. Seus passatempos preferidos eram esmagar tortas nas caras de seus adversários e rir e rir como faz uma criança depois de uma traquinagem bem sucedida. Nada de violência por aqui. O máximo que poderia haver, era glacê secando no rosto dos infelizes que se colocavam em seu caminho.

Fez um enorme sucesso o Coringa de Cesar Romero. Até hoje é relembrado pelos fãs como uma das interpretações mais fieis. Se formos pensar em termos de caracterização, era mesmo um dos mais próximos da personagem dos quadrinhos. Aparecia sempre metido no seu terno roxo e dando uma daquelas suas risadas espalhafatosas. Mas os anos foram passando e o público passou a pedir por enredos mais complexos. E isso refletiu também na construção das personagens cinematográficas. Eis que chegam os anos 80, e Tim Burton ganha visibilidade com o seu jeito intimista de ver o cinema e seu estilo sombrio e teatral ao extremo. Imaginemos como deve ter sido: ele na sua varanda tomando suco de limão comprado numa barraquinha, com uma revistinha em quadrinhos dos Batman nas mãos, quando vem a ideia: E se levássemos isso aqui aos cinemas? Um pouco mais dark, como costumam ser os meus filmes, mas sem perder esse tom, digamos, um pouco inocente e…

E assim nasce o Coringa de Jack Nicholson. Continua a ser o palhaço brincalhão, mas suas brincadeiras agora matam. A flor de lapela atira ácido e o seu riso é oriundo da desgraça humana e não ecoa inocente como o daquele palhaço vivido por Romero. É importante destacar que na época, os quadrinhos já mostravam uma estética mais adulta. O clássico, “Piada Mortal”, escrito por Alan Moore, e “Batman: O cavaleiro das trevas”, escrito e desenhado por Frank Miller, são todas produções desse período e sinais claros de que os quadrinhos não eram mais produtos infantis. Batman se tornara um justiceiro violento e não pestanejava em quebrar os ossos da bandidada, e se necessário, ia às vias de fato e matava. E o Coringa também seguia por esse caminho. Afinal, ele tinha de continuar a ser um adversário à altura do morcego. E para isso, ele se tornou um assassino. Embora ainda fizesse das suas gracinhas, aparentemente inocentes, como naquela cena em que coloca um par de óculos na cara e pergunta se o Batman teria coragem de bater em alguém de óculos, no lugar do glacê respingando das faces vitimadas por suas traquinices, passou a haver sangue e feridas e gente horrorizada com aquilo que o palhaço era capaz de fazer.

Menos palhaço e mais… Louco?
Menos palhaço e mais. . . Louco?

Tim Burton fez uma releitura mais densa do personagem. Ali havia um Coringa cheio de motivações e que faziam dele o mais complexo até então, ao menos, nos cinemas. O próprio nascimento do palhaço do crime, inspirado pela história escrita por Alan Moore, e que acabou por se tornar para alguns, a versão oficial para o surgimento do Coringa, é por si só um acontecimento violento. O mafioso Jack Napier é enganado por seu patrão e em uma emboscada nos interiores de uma fábrica, acaba sendo atirado em um tanque de ácido por nada mais, nada menos que… O próprio Batman! Daí surge a contenda entre o palhaço e o homem morcego. Com a face deformada pelo ácido, Jack Napier tem uma crise de identidade e vai se transformando pouco a pouco no palhaço e passa a acreditar que tem a missão de transformar o mundo… “Todos esses homens lá fora, acreditando que vivem da maneira correta, quando só estão sendo enganados, iludidos pelos padrões de beleza, pelas convenções sociais… Ora, tenho de fazer alguma coisa!” E assim começa o seu reinado caótico em Gotham City.

Ao contrário do Coringa de Cesar Romero, o de Jack Nicholson não quer apenas gargalhar do resultado de suas brincadeiras. Aqui a coisa fica mais séria. Pela primeira vez nos cinemas, ele surgia como um agente do caos, uma ameaça a moral de uma sociedade capenga. Há um nível simbólico profundo permeando toda a trama: o Coringa é a própria loucura encarnada, mas não a loucura isolada de um único indivíduo, mas aquela a qual pode chegar um coletivo sempre a beira do precipício. Ri da fraqueza dos homens aprisionados a certos padrões de comportamento, e como o Diabo, sabe bem como ludibriá-los e levá-los à destruição.  Um bom exemplo é a maneira como ele usa a ganância humana ao seu favor. Atira dinheiro para as multidões e as leva para a ratoeira como se faz com um camundongo indo à cata do queijo, e que quando menos espera, é esmagado pelo mecanismo de sua própria corrupção, ou, de seu instinto.

Nesse cenário, Batman surge como uma última resistência, uma personificação da crença que as pessoas ainda conservam nas virtudes celebradas por uma sociedade. A honestidade acima de tudo, dentre tantos outros valores ameaçados pelo Coringa. Percebem como é profunda a trama, embora na superfície pareça tão simplória? O palhaço puro e infantil ficou para trás, e o que temos agora é um psicopata, que querendo ou não, dialoga conosco e nos pergunta: Acham mesmo que estão seguros? Que basta agirem como bons cidadãos e nada de mal lhes acontecerá, que estarão seguros da peste chamada loucura, do caos, sempre tão próximo, tão presente de vós, reles mortais…

Podemos imaginar que aquele Coringa correspondia a uma demanda do cinema produzido naquela época. Precisavam de um vilão que pudesse levar a trama para além do básico bem contra o mal. Pois ali Jack Nicholson interpreta mais do que o palhaço do crime. Ele é a própria doença da qual sofre o organismo. O tema se aproxima daquele explorado no clássico “A Piada Mortal”. Qualquer um pode enlouquecer. A ordem do que chamamos de “realidade” é frágil demais e pode se romper em milhares de pedaços a qualquer instante, desde que se aperte o botão certo, e o Coringa sabe bem como manejar esses botões. Não por menos, a única forma que Batman encontra de vencê-lo é atirando o palhaço de uma torre e assim, o matando.

Embora esteja ligado a questões pesadas, o Coringa proposto pela trama de Tim Burton ainda é um engraçadinho. Veste-se nas cores roxa e laranja, berrantes como as dos artistas de circo, e ri feito um condenado das brincadeirinhas que faz. É como uma criança maldosa, que consegue achar graça em botar fogo num gato e em atos bobos como peidar na frente de visitas ou dar arrotos em horas inapropriadas. Desafia, digamos, os mais velhos, os senhores da moral, as tradições reencenadas geração após geração, mas ainda não é uma mente fria e calculista como o palhaço que nasceria dali há duas décadas.

Estamos nos anos 2000. Assistimos a queda das duas torres gêmeas em New York e a tantas outras atrocidades que vieram com o novo século. Há um clima de constante incerteza em relação ao futuro, e talvez alguns pensem que uma terceira guerra mundial não seja um delírio, mas algo muito provável para breve. Nesse contexto, digamos, pré-apocalíptico, uma nova releitura do personagem se faz necessária, para melhor entendimento das questões que nos são propostas por esse aterrador-mundo-novo. E eis que surge Christopher Nolan e sua leitura moderna do universo de Batman. Agora o morcego é um combatente urbano e o seu principal antagonista… Um terrorista que ameaça a integridade da sociedade, em outras palavras, cada um dos valores que ali são louvados.

Por que tão sério? Hein? Heiiiiiinnnnnn?
Por que tão sério? Hein? Heiiiiiinnnnnn?

Sua risada agora não é a de um palhaço de circo, mas a de um sujeito atormentado e complexado por traumas antigos. Ele ri de sua desgraça, mas não quer tê-la só para si, quer que todos também passem a rir de suas próprias desgraças, depois é claro, que tiverem sido consumidos por elas. Logo, aqui o riso não alivia, mas é o próprio desespero. “Por que tão sério?”. Esse é o bordão do Coringa interpretado por Heath Ledger e já expressa em poucas palavras a sua essência: o caos em sua forma absoluta.

O visual também fala muito sobre a nova persona. O clássico terno roxo é utilizado, mas está com um aspecto de tecido velho e sujo. Os cabelos verdes estão bagunçados e parecem oleosos, e não remetem mais ao visual consagrado pela máfia, do bandido que se veste e se penteia com estilo. É o palhaço da sarjeta quem nos encara da tela e tudo o que ele quer é que questionemos a nossa própria humanidade. Ele é o grau máximo de decadência a que um ser humano pode chegar: desprovido de qualquer valor moral ou crença em virtudes.

E ele é mais perigoso do que os terroristas ideológicos, pois não tem ideologia. Sequer é anarquista, pois não lhe interessa destruir para reconstruir, mas apenas destruir. Quer ver a derrocada do ser humano e para isso coloca o conceito de “ser humano” a prova a todo instante, tanto em seus embates com o Batman ou como numa das cenas finais, em que obriga bons cidadãos e bandidos a decidirem entre si, enquanto estão confinados em navios recheados de explosivos e a ponto de explodir, quem deve morrer ou viver. Leva o conceito da ambiguidade moral ao seu extremo e nos põe a questionar sobre, o que afinal de contas, é o bem e o mal.

Apesar de sua loucura externada nos diálogos em que ensaia explicações da origem dos cortes em sua boca (história essa que ele muda a toda hora sem nos dar uma versão na qual possamos acreditar), e em seus atos, como metralhar os seus ajudantes em um assalto a banco ou enfiar uma caneta no crânio de um mafioso, esse Coringa é de uma racionalidade ímpar. Meticuloso, engendra planos brilhantes que colocam até mesmo Batman, o maior detetive do mundo, no chinelo. Mais do que um palhaço, ele é um gênio do crime, e não brinca em serviço como as suas outras encarnações. É objetivo a respeito do que quer e de um jeito assustador, como o são certos terroristas que derrubam prédios com aviões.

O que podemos esperar de você?
O que podemos esperar de você?

Por fim, temos o Coringa do Leto. O que dizer dele? Não há muito. Teve menos de quinze minutos de filme e não mostrou muita coisa. Sabemos que é apaixonado por Arlequina, uma paixonite adolescente, pelo que pudemos perceber das cenas em que os dois interagem, algo que foge da premissa original, onde ambos sustentam uma relação doentia, em que Arlequina se submete a todo tipo de humilhação por seu pudinzinho. Há quem diga que o relacionamento entre os dois tenha sido suavizado nos cinemas, por temor do estúdio a  represálias vindas do público mimimi, ou, em outras palavras, os moralistas de carterinha que tem ditado o certo e o errado por aí.

Quanto ao Coringa do Leto… Bom ou ruim, ainda é cedo demais para dizer. Dá para notar que é mais juvenil em sua aparência, com apelo para tatuagens e anéis, talvez, numa tentativa de dialogar mais facilmente com um público que em teoria é mais jovem. Daí outro motivo para manter uma relação em moldes adolescentes com Arlequina. No entanto, o que vimos ainda é pouco para se chegar uma definição acertada da personagem. Será ele, a loucura respirando os ares de uma juventude ligada a tecnologias (detalhe para o Coringa trocando mensagens com Arlequina via whatsapp) e aos ditames da moda? Quem sabe, se em um futuro filme, não tenhamos a oportunidade de conhecê-lo melhor? Por enquanto, fiquemos com nossas esperanças em outra ótima interpretação, e com a certeza de que como símbolo multicultural, o Coringa não cessará de sofrer as suas metamorfoses ambulantes e de sintetizar em seu corpo múltiplo, os anseios e os horrores dos tempos em que vivemos. E fica conosco aquela espinhenta pergunta: O que, afinal, é a loucura? Não seremos nós todos possíveis Coringas?

 

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.