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A banalização das tragédias (ou a promoção da miséria que interessa)

A data de 29 de novembro de 2016, ficará para sempre marcada em nossa história brasileira, como o dia em que um time inteiro morreu na infeliz queda de um avião na Colômbia. A Chape, como é tradicionalmente conhecida a equipe de Chapecó, perdeu vinte jogadores mais comissão técnica, sem falar nos jornalistas que pegavam carona e terminaram todos mortos. Sim, sim, estamos falando de mais de 70 mortos em um único dia, o que faz do acontecimento, não só uma tragédia futebolística, mas uma dor que todo brasileiro há de sentir no peito, uma dor que vem com aquele sentimento terrível de finitude que tanto nos esforçamos para combater, mas que sempre volta, quando ligamos a televisão ou visitamos a internet sem pretensões algumas, e acabamos por descobrir que uma equipe até ontem feliz por uma suada classificação numa competição internacional, já não está entre nós.

É horrível sim, imaginar que a alegria de hoje pode se tornar cinzas amanhã. E é por isso que o acidente da Chape dói no coração até de quem não é fanático por futebol. Pois aqueles jogadores não pensavam apenas no possível título, eles estavam felizes por fazerem história, por conseguirem, mesmo com os recursos miúdos e a recente história, chegar tão longe numa competição de importância continental. Aquelas risadas não eram reflexo de uma alegria vã, tampouco vaidosa, mas de gente que sonhava em elevar um time modesto aos mais altos degraus do esporte, risadas de quem sonha com um amanhã mais bonito de se viver. Risadas quase de criança, de quem só sabe ver com bons olhos o que há de ser o futuro.

O acidente na Colômbia nos choca porque fala direto com nossa humanidade. Nos imaginamos no lugar de todas aquelas pessoas, adentrando num avião com mil e uma perspectivas para o amanhã, sem ter a mais leve desconfiança de que tudo irá terminar dali algumas horas, de que todos os sonhos acabarão despedaçados juntos com os restos da fuselagem de um avião. O que mais choca, é a nossa pequenez diante da única verdade incontestável da vida: a de que morreremos, talvez ainda hoje a noite, enquanto dormimos, ou daqui uns tantos anos, mas morreremos, enfim pegos no cangote pela Senhoria Dona Morte. De um jeito ou de outro morreremos, e é esse fato que nos cala e nos faz segurar forte na mão do outro, em busca de consolo, alguma proteção, independente de religião ou camisa de futebol.

Vivemos nossos dias com a despreocupação daquele que ignora o tempo, o tique-taque do relógio que há de trazer para mais perto da gente o destino final. E esquecidos continuamos cada qual em seu caminho, e nos tornamos frios diante da dor do outro, ora, o que importa é o andar da minha carruagem, os outros é que se virem por aí, não tenho filho nenhum dessa idade… E prosseguimos sem que o sofrimento alheio nos afete, até que uma tragédia dessas acontece, e aí então somos obrigados a largar o nosso orgulho de lado e reconhecer que ser-humano é não ter certeza de coisa alguma, é traçar planos sem poder afirmar que um dia haveremos de concretizá-los. E isso assusta, ah, sim, essa falta de controle que temos sobre as coisas, pois podemos entrar também num avião qualquer dia desses, e, e…

Ter compaixão por quem sofre. Eis algo que nos falta em demasia. A tragédia deveria servir para nos recordar da humanidade que jaz adormecida em nosso peito, quase que aniquilada por esse cotidiano prático por demais, onde deve-se fazer, antes de sentir, de pensar. Mas não! A tragédia também nos faz descobrir coisas horríveis sobre a nossa própria espécie, e talvez já não desperte em uma maioria, o sentimento de ser humano e por demais finito que em outros tempos despertava. Nenhuma compaixão, em absoluto. Afinal, porque devemos sofrer pelos jogadores e jornalistas precocemente mortos na Colômbia? Só porque eram jogadores de futebol? Ora, e as crianças na África que morrem todos os dias aos milhares? Sem falar que haviam poucas minorias no avião, quase nenhum negro ou sujeito azul, e além disso, há gente que sofre muito mais nos morros do Rio, ou em Cuba, vocês se esqueceram de Cuba…

É desprezível! É desprezível, isso para não dizer outra coisa, como há homens e mulheres que não sentem mais a tragédia, que olham para uma tela de televisão e suspiram bem fundo e pensam: “Mas só 70? Ah, os imigrantes morrem em maior número…”. Sim, talvez eles morram, mas uma tragédia não anula a outra, não, todos continuam mortos do mesmo jeito, e as pessoas também continuarão a sofrer, sejam imigrantes ou os familiares de todos os jogadores da Chapecoense, todos ainda sofrerão mesmo que afirmações cretinas como essa continuem a reverberar pelos quatros cantos de nosso país.

Eles se dizem justos. Eles dizem que devemos sofrer por isso ou aquilo, e deixarmos de sermos tão egoístas, ora, vocês não enxergam como anda terrível o nosso mundo? Para que sofrer por um time de futebol, quando, quando… Ah, eles têm almas tão generosas! Querem abraçar o planeta inteiro… Eles são os novos santos do pedaço, aqueles que sofrem por todos os que não tem voz. Oh, mas como são bons! E porque é que nunca foram canonizados? E seguem fazendo suas defesas sociais em alto e bom som, para que todos escutem e se apercebam de sua inédita bondade, e de que há gente sofrendo pelos confins desse mundo enorme, lá na China, até na casa do caralho, toda essa gente sofrente e – graças aos céus – diariamente abençoada por esses homens e mulheres santos, ah, que não aguentam ver o sofrimento alheio, a não ser o de seus próprios irmãos de sangue, de cultura, de raízes, ah, esses podem morrer à vontade, mas que ninguém se esqueça da fome na África, mas que ninguém se esqueça…

É bonito como escolhem as tragédias. Talvez façam uma opção estética. “Ah, essa aqui é melhor, porque tem minorias de montão e que hão de reforçar discursos dogmáticos nossos e tão bonitos para inglês ler…”, “E as crianças do Iraque? Olha elas morrendo! Que triste…”, e eles vão escolhendo suas tragédias, mas é estranho como não caem lágrimas de seus olhos. Será que se esqueceram de como é chorar? Ou talvez já sejam tão peritos em tragédia, que nenhuma delas lhes afete mais. É, pode ser…

Sou brasileiro e sinto a tragédia da Chapecoense na condição de ser humano, de criatura aterrorizada com a minha própria finitude, com a pequenez de todos nós, que nos julgamos gigantes no alto de nossa arrogância, mas que somos tão pequenos, mas tanto… E tenho direito sim, de lamentar a partida desses jogadores e me esquecer por alguns dias do resto do mundo, enquanto durar o luto, ora essa, eles tem suas próprias dores, mas a dor brasileira de hoje, além da que sentimos por termos um governo que faria medo até em Ali Babá e seus quarenta ladrões, é a tragédia ocorrida na Colômbia, não a fome na África, mas a tragédia ocorrida na Colômbia.

Só para terminar, um pouco de Nelson Rodrigues, que continua atualíssimo, e pelo jeito vai continuar: “…Mas gememos pelo Vietnã, por Cuba, por todos os povos subdesenvolvidos. É a cólica alheia que torce e retorce as nossas entranhas.”

E que descansem em paz todos os que faleceram na Colômbia. E todos os outros que morrem pelo mundo, pois aqui não fazemos opção estética.

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.