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A importância do pensamento crítico

Vivemos em uma sociedade em que o bom e o ruim são definidos a posteriori. Se o pai ou a mãe dizem que tal coisa é boa, quem somos nós para discordar? Ou mesmo o vizinho de mais anos, que do alto da autoridade que a idade lhe empresta, acredita-se o senhor das verdades universais. E assim ocorre com o padre da igreja, os professores, e nós acuados em nosso canto, obrigados a concordar com tudo, pois somos tão tolos, oh, piedade de nós!

Eis que surge o crítico! Visto por todos como o sujeito enjoado que vem para estragar a conversa de bar. Enquanto todos dizem:”É, aquela novela das oito é mesmo sensacional. Há muita gente engraçada e eu rio a beça e…”, e todos dizendo mais ou menos as mesmas palavras e seguindo para um acordo mútuo que favorecerá a paz nesta mesa, quando chega o tal sujeito chato que diz: “Não acho que essa novela seja lá uma coisa agradável. É exagerada nas suas intenções, sabe? E quer saber? Mente descaradamente sobre a nossa realidade social.”, e daí aquela paz cai por terra e ficam todos olhando torto para aquele que ousou rompê-la, e assim, de forma tão gratuita! Quer estragar o prazer alheio? Ah, sim, deve ser, com toda a certeza! Que sujeitinho mais desagradável…

Assim é visto o crítico pela maioria das pessoas. O chato! Uma pessoa com toda a certeza muito infeliz, e que por ser incapaz de encontrar a felicidade nas coisas, tem que apontar defeitos aqui e ali, num esforço de provar que o mundo é mesmo feio e sem jeito e não devemos ter esperanças, nenhuma, em absoluto. Mas vejam bem, meus queridos leitores, (de agora em diante usarei sempre do plural ao me referir a quem lê. Sou mesmo convencido em acreditar que tantos assim perdem tempo lendo os meus textos. Sonhar nunca é demais, não é?) que pode haver mesmo por aí esse tipo de pessoa a qual estou me referindo, aquele indivíduo azedo que quando chega a um ambiente provoca debandada geral para lugares onde ele não esteja, por causa de seus comentários amargos, desses que deprimem até quem não tenha motivos quaisquer para chorar. No entanto… Alguém assim deve ser considerado crítico?

Pois há um erro na interpretação do termo “crítico”. Na verdade, o erro se origina da ignorância mesmo, do preconceito, dessa nossa mania de taxar tudo e simplificar o mundo em demasia. Reclamar de tudo não torna uma pessoa crítica, não no sentido mais formal da palavra. Se fosse assim, todos nós seríamos críticos de carteirinha nas filas de banco, de pé em ônibus lotados, e em nossos empregos miseráveis e dos quais não nos cansamos de nos queixar. Esse não é o crítico de verdade, não no sentido clássico do termo. Não, pois essas “críticas”, meras resmungações que entoamos em nossos momentos de raiva, não nos levam a reflexões mais profundas a respeito de nada, ao contrário, tem cheiro de mofo, na insistência em repisar uma mesma perspectiva de um assunto, sem nunca procurar o diferente, o inusitado, que pode render, quem sabe, uma mudança no panorama das coisas.

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Não confundam resmungações com críticas.

A ideia da verdadeira crítica é essa: fugir do pensamento tradicional e tentar encontrar caminhos para aquilo que não funciona. Se o sistema de transporte público está uma vergonha, adianta ficarmos nos queixando uns para os outros, enquanto a situação permanece a mesma, sem tirar e nem pôr uma vírgula a mais que seja? Não, temos é de tentar apontar soluções, analisando o que dá errado para entender realmente o problema. Só quando entendemos o problema é que somos capazes de resolvê-lo. Chorar na cama não adianta, tampouco amaldiçoar todos os deuses. Esse aí é o chato incurável! Reclama e reclama, mas não pensa. É oco demais para tanto.

Entendem a diferença? O crítico é um pensador. Se depara com o problema e o analisa friamente, como faz um cientista diante de seu objeto de estudo. Pode haver emoção, claro, pois somos humanos e vivemos delas, mas mesmo quando há, o crítico a usa em seu favor para alcançar um entendimento maior a respeito das coisas. E se não fosse a emoção, como aquela raiva que se sente diante de um hospital abarrotado de doentes, a tristeza pelo sem fim de esfomeados que morrem em nossas ruas, não haveria o ímpeto de mudança. A crítica é mais ou menos isso. Quer promover uma evolução, uma reflexão em determinado assunto, seja nas ciências, nas artes, para que possamos sair de um ponto estático e caminharmos rumo a algo novo. Quem sabe, um mundo melhor para se viver. E um bom exemplo de filósofo regido não só por razão, mas por emoção, é o polêmico Nietzsche. Não é à toa que ele ficou conhecido por “filosofar com o martelo.”.

Ela nos ajuda a melhorar como pessoas. Quando críticos, não nos resignamos mais ao que dizem ser sem jeito. Saímos assim do beco sem saída chamado senso comum, que preza pelo repetir de fórmulas apodrecidas de tão velhas, e passamos a uma atitude mais ativa diante das coisas. Se o pai e a mãe estão cansados demais diante do mundo e suas injustiças e dizem que todo esforço é e sempre será em vão, o filho, como sujeito crítico pensará consigo: “Mas, peraí… Por que dizem isso? Tem de haver uma solução! Tem de haver!”, e movido por esse espírito de mudança, passará a refletir sobre as nuanças da condição humana, e não aceitará o dito e redito um milhão de vezes. Foram assim com os grandes filósofos de nossa sociedade. Não quero dizer que o pensamento crítico haverá de torná-lo um gênio, mas tornará a vida no mínimo mais interessante. Vamos lá, o que vocês preferem? O mundo cinzento dos balançares de cabeças que com tudo concordam e das bocas cansadas em falar o mesmo até o dia em que nada mais falarão, ou o colorido que o olho aberto a reflexões há de enxergar? A escolha é sua.

É claro que estou sendo bem simplista aqui. O tema é acadêmico e merece um trabalho mais cuidadoso de análise e de discussão, mas a intenção aqui é apenas começar uma reflexão, para que ao menos passemos de uma atitude preconceituosa sobre o pensamento crítico, para uma visão mais aberta, e portanto, livre da cegueira dos ditos convencionais e que em nada favorecem o pensamento. Espero ter cumprido a proposta, e se não, paciência… Nesse caso, leitores queridos, vocês estão mais do que convidados a fazerem as críticas que acharem convenientes a este humilde esforço de digressão. Mas sem serem chatos, certo? Sem serem chatos…

Ah, e para quem quiser ler algo mais sério e completo sobre o tema, indico o artigo escrito pela Ludmilla, uma de nossas redatoras mais experientes do Café comWhisky: http://cafecomwhisky.com.br/a-critica-da-critica/

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.