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A Paixão Segundo Shakespeare e outras coisas mais

Desventuras teatrais sempre rendem algo sobre o que falar para os meus (imaginários, creio, ou será que vocês existem?) queridos leitores, e não foi diferente com a peça montada por Pedro Paulo Cava, dramaturgo famosinho por esses lados mineiros, essa roça grande que chamamos de Belo Horizonte. E te falar: Tinha lá um pé atrás com Shakespeare, coisa de ignorante, que essa reação é comum quando não conhecemos algo direito e cismamos de fazer juízos de valor sem cabimento nenhum. Pensava que o tal escritor e ator e tudo o mais, morto há uns quatro séculos, só falava de Romeus e Julietas e casos banais de amor, mas… A gente sempre se surpreende, e é isso que é bom, essa nossa capacidade de aprender coisa nova todo santo dia.

Te falar, a peça “A Paixão Segundo Shakespeare”, encenada a partir de trechos de diversas obras do imorrível dramaturgo, é boa, de verdade, nem tenho o que criticar. Os atores eram todos muito bons, me arrancaram gargalhadas e me fizeram raiva e me fizeram até começar a gostar da tal da Julieta e do Romeu, sabe, tive até vontade de ter um romance besta daquele, de falar amorzinho pra lá e depois pra cá… Que a tática de encenação planejada por eles era muito interessante, essa coisa de levar o público pra dentro do palco, derrubar a primeira e a segunda e a terceira paredes, e você lá, vivendo tudo junto das personagens. Ah! Importante deixar o leitor a par dos detalhes: A peça foi encenada no Teatro da Cidade, lá na rua da Bahia, teatro que tem uma configuração, digamos, diferente da convencional. É como uma arena, daquelas onde homens matavam uns aos outros para deleite das massas, só que ali não havia leões e nem gladiadores com machados monumentais, apenas atores rolando, declamando… Encantando.

Mas o palco não era limite para nada, que ali a ação cênica não se limitava a um espaço, a um jeito de se fazer as coisas. Todo o espaço era útil, até o vãozinho entre a sua cadeira e a do vizinho, por onde passavam correndo as figuras shakesperianas, a turma inteira roçando na sua perna, em tempo até de tropeçar. Tinha uns que até apareciam dependurados no lustre declamando os versos de Shakespeare, sem gaguejar hora nenhuma, e você lá na cadeira e vendo um Hamlet olhando nos teus olhos, como se falasse contigo, e não com uma caveira, ou sozinho como se fosse um lunático com problemas existenciais. O que ele era, ora, onde já se viu alguém ver fantasmas e discutir consigo mesmo como se estivesse num debate filosófico com a mais brilhante das mentes e… Entende? Não era aquela interpretação em que os atores parecem estar há uns anos luz do público, quase num outro mundo, interpretando para platéia apática que só aplaude e ri nas horas certas. Não, eles estão lá, na sua frente, e se quiser, dá até pra tocar naquelas vestimentas todas de príncipe ou colocar uma perna no caminho de um personagem enquanto ele estiver passando, é claro, se você for um idiota e quiser arrumar briga com um mercador cristão ou com Otelo.

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Tudo muito bonito, mas muito bonito mesmo!

Tudo muito vivo, era essa a impressão que tive durante todo o espetáculo, e os atores eram sensacionais, não estou puxando o saco, eram mesmo. Tinham vozes de barítono que ressoavam e davam até um frio na nossa espinha, como quando tal esposa viu um punhal na mão de seu marido e percebeu que ia morrer e deu um grito… Mas que grito! De fazer teu coração disparar e sair pela boca pulando feito peixe no meio das cadeiras e de toda a gente. E que dizer da bruxa que interligava os quadros da peça? Surgia por trás de pilastras assustando todo mundo com sua risada enferrujada, ou deitada logo ali, uns níveis acima das sua cabeça, com aquele riso debochado na cara e condenando a nós todos pelas tragédias ocorridas sob a luz do palco, como é natural de uma bruxa fazer, sem nunca se cansar de nos lembrar, que nós, homens e mulheres de todas as idades e cores e credos, estamos inevitavelmente condenados a perecer pelo jugo de nossas paixões.

Sim, sim, gostei não só das atuações e da maneira como a encenação foi preparada, mas principalmente de enfim conhecer o tal Shakespeare, sujeito sobre o qual só ouvia falar, e que até achava pretensioso demais naquelas suas fotografias pintadas de uns séculos atrás. Aquela barbinha, um ar de inteligência que… Tinha com ele a mesma rixa que tenho com certos sujeitos metidos a besta, crentes de terem todo o conhecimento do universo enfiado em suas cabeças, mas tive de mudar de opinião, que ao contrário desses sujeitos, Shakespeare provou que tinha lá jeito para escrever um texto e te fazer rir e chorar e ter ódio; tudo isso ao mesmo tempo. E olha que são quatro séculos desde a sua morte, e a sua escrita, embora arcaica, ainda comunica até para gente mais simples, coisa que os tais metidos das faculdades não conseguem, embora adorem dizer que se preocupam demais com os destinos do povo. Assunto pra outro artigo, com toda a certeza…

O doido do Hamlet. Esse aí precisa de uns tarja preta.
O doido do Hamlet. Esse aí precisa de uns tarja preta.

São seis cenas retiradas de peças de Shakespeare, e não vou citar quais quais são elas, ora essa, basta digitar no google e você encontrará o que procura, não há segredo. O que importa dizer, é que se você, querido e hipotético leitor, for sujeito de Belo Horizonte, vale a pena gastar o teu dinheiro, nem que seja uns trinta reais, ou quinze (pra tu que tem meia), e assentar para conhecer um pouco do tal autor britânico, nem que seja para criticar depois, mas conhecer. Te falar: Não me arrependo em nada, ao contrário, depois da peça tive vontade de pegar uns textos shakesperianos e ler um por um, ou experimentar prazer de ver uma das peças na íntegra, e nisso o projeto de Pedro Paulo Cava é ótimo; te apresenta para um universo dito erudito sem preciosismo nenhum, e com tamanha simplicidade… Merece mesmo é uma salva de palmas!

E teve ainda outros acontecimentos, não só envolvendo atores e texto, e que me fizeram feliz, nossa senhora!, com alguma esperança nesta sociedade nossa de agora. Que houve nudez no palco, não gratuita, mas nudez! Tal personagem tirou sua roupa e ficou nuíssima diante dos olhos virgens de todo o público, coisa de meio segundo, mas suficiente pra ver peitos e tudo o mais. E que atriz bela e… Certo, certo, vamos nos concentrar no que importa, e que é o seguinte: na hora em que ela tirou vestes para estarrecer olhos virgens de todos, esperei ouvir alguém gritando do meio das cadeiras: “Mas isso é um absurdo! Insulto para toda a família brasileira, até para as famílias que sequer conheço!”. Só que não teve nada disso, nenhum desses defensores da boa moral que adoravam avacalhar as peças do Nelson Rodrigues se levantou para protestar, e isso me deu uma felicidade… Tão bom saber que o público de teatro é mais maduro do que a maioria, e não se sente insultado como uma nudez tão polida, quase casta de tão artística.

Ah! E ainda houve um outro momento de erotismo espetacular, uma verdadeira aula de como usar o sexo a teu favor no fazer ficcional, e não de forma esdrúxula, como faziam na tal pornochanchada ou na produção de míticas obras de amor, até hoje conhecidas por “Brasileirinhas”. Seguinte: estavam vestidos os atores, mas mulher derrubou homem e trepou nele e era como se estivessem transando, ali, bem diante de nós, com direito até a vai e vem e gemidos, mas havia uma justificativa cênica para tudo aquilo, e isso dava uma beleza sem igual ao todo, uma plasticidade… Pense num homem tomado por paixões e com fome de conquistar mundo, de um dia ser Napoleão, e disposto a tudo para conseguir essas coisas, nem que tenha de matar uns mil para conquistar objetivo. Pois bem, era isso. A mulher era a própria paixão encarnada, e o homem estava por debaixo dela, indefeso, sob seu jugo… Simplesmente bonito! E o melhor: nenhum representante da tal família brasileira (será que ela existe mesmo?) estava lá para protestar em nome de famílias que sequer conhece.

Bruxa
No centro, o espírito do mal, o cão, a bruxa! Cínica, vai fazer pazes com o público, depois de horrorizar todo mundo com verdades inconvenientes.

Para terminar, que já é hora de ponto final, insisto: vale a pena conhecer Shakespeare. E se você, querido leitor, está em dúvida de por onde começar, vá de “A Paixão Segundo Shakespeare”, de Pedro Paulo Cava, que é um mexidão delicioso, desses com pitadas de muita paixão humana para empanzinar qualquer coração sedento por sentimentos. Por humanidades.

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.