coluna literaria

A Torre Negra III: As Terras Devastadas

Terminei ontem de ler o quarto livro da série “Mago e Vidro”, e só com o fim desse ultimo, lendo uma nota que Stephen King colocou como posfácio, percebi uma coisa a mais que separa cada um individualmente. Cada um tem um tema forte em destaque, sendo abordado e aprofundado de uma forma exclusiva para cada um dos volumes. Foi isso que eu pude perceber até o momento (Ainda estou na metade da leitura dos livros, olha que não estou contando com o livro que foi lançado esse ano (Vento através da fechadura).

Em “O Pistoleiro” o mais famoso livro da série, a apresentação de Roland e das duas bases inspiracionais da história são apresentadas, com uma digníssima e longa nota do autor. Roland se mostra um personagem frio, e sem emoções. Alguém misterioso que carrega no olhar, nas roupas, nas pistolas com cabo de sândalo toda uma vida de tragédia e perigo. Nunca podendo ficar muito tempo em um mesmo lugar, muitos inimigos, muitas perdas. Mas apesar do titulo, o primeiro não conta a história do pistoleiro, e sim nos apresenta ao mundo caótico no qual ele vive, uma mistura de faroeste com um mundo pós apocalíptico em um futuro bem distante, que se confunde várias vezes com o passado, ou mesmo, outro mundo.Outro planeta.

Dos quatro livros que li até o momento, o primeiro é o que mais se aproxima do suspense de prender o folego que Stephen King produz. Alguns capítulos realmente mechem com a realidade e a sanidade, não somente do personagem, mas para quem adentrou sem receio na história.

O segundo livro, fala do Ka’tet do pistoleiro. Seu grupo de discípulos e ajudantes. Diferente da abordagem de introdução á um mundo devastado, em “A escolha dos três” vem contar sobre amizade. Cada um dos três personagens que entram para viver com Roland as dificuldades para se encontrar a torre negra. O grupo vaio se conhecendo, e pouco a pouco vai sendo mostrado que a ligação deles já existia ainda antes de saberem da existência um do outro, o ka. Cada um deles é mostrado com uma perspectiva que vai totalmente de encontro um do outro. E essa diversidade é quem é a responsável por uni-los ainda mais, tanto nos momentos de necessidade, quanto nos momentos de “desabafo”.

Assim como os outros dois ´livros, e presumo que todos são realmente assim, o titulo remete á apenas uma passagem, vezes breve, vezes não tão aprofundada. As “Terras devastadas”, são grandes campos deteriorados, “machucados” na superfície do planeta, com direito a espécies oriundas de anos de solo contaminado, gerando aberrações imensas e monstruosas. É uma pequena área de um enorme mundo, ou uma imensidão de terra dentro do mundo médio, que é muitas vezes maior que qualquer outro. Mas “Terras Devastadas” não é uma determinação de apenas um ponto doente do mundo do pistoleiro, mas o mundo todo em si. Somos apresentados formalmente ás Luminas, feridas abertas no tecido do espaço-tempo (Lembrei muito de Fringe nesse ponto). Coisas que apesar de serem fenômenos acontecendo na natureza, não são nenhum pouco naturais, e parecem vivas. Pequenas amostras da deterioração e eminente colisão dos mundos, tanto dos novos membros do Katet de Roland, bem como seu próprio mundo.

A natureza humana diante o desespero e solidão, faz parte do que eu considero de temas paralelos da trama principal. Não somente os protagonistas ficam no foco do enredo, mas a degeneração e o desespero frente a miséria e medo. King consegue fazer o mesmo ambiente em “Lud” (uma das grandes cidades do mundo médio), ou melhor, o mesmo medo que trás em Bridgton , a cidade que ambientaliza o suspense “O nevoeiro”. Frente ao desconhecido, o medo toma conta da mente dos personagens, degenerando o bom senso e fazendo com que o instinto de sobrevivência e a busca por significação do aparentemente inexplicável. O medo surge exatamente dessa necessidade não saber o que está atacando, ou melhor, por que a cidade foi atacada, o que está atacando… O medo do desconhecido nos tornam verdadeiros animais.

Uma outra coisa aponto muito mais nesse terceiro livro do que nos outros dois. Antes mesmo de publicar os livros em 2008, King fez uma nota, que vai um pedaço dela em cada livro, falando das suas referencias para a criação da história. King faz uma mescla da sua influencia com o universo Tolkiano, com todas as suas maiores referencias, tanto musicas, tanto cinematográficas (Pra quem ainda não leu, saiba que “Hey jude” dos Beatles vai ficar presa na sua cabeça), mas algumas pequenas e (pelo menos pra mim) desconhecidas.

Presumo que todos os livros vão contar a evolução da personalidade do pistoleiro, mas é nesse terceiro volume que king conta de uma forma incrivelmente verissímil (olha que ele faz isso em uma história imensamente fantasiosa) os conflitos próprios de dois personagens, Eddie Dean e Susannah. A dificuldade de deixar para trás seu mundo e ir se juntar com Roland na busca da Torre, o primeiro, tendo que se livrar do seu vicio em heroína e deixar pra trás o fantasma de seu irmão, cujo o assassinato ele presenciou, e Susanna, com sua personalidade dúbia e com seus próprios fantasmas do passado para lidar.

Avaliação CcW: 09/10