Paulo Betti

Autobiografia Autorizada: Uma vida que me faria feliz?

Natural haver dias em que ficamos a pensar na vida que podia ter sido e não foi. Um existir diferente, com outras caras frequentando nossa rotina, e nós mesmos como outros, novinhos em folha, com uma história cujos capítulos levam por uma trilha nunca antes explorada.  Uma vivência diferente. Mais rica. Ah, aí jaz nossa condenação! Sempre acreditarmos que o que temos não é suficiente. Amaldiçoamos  nossa vida por ser tão banal, crentes de que se fosse outra, caberia espaço para alguma felicidade. Como costumo dizer (digo, mas não sei se alguém já proferiu a frase. Não me acusem de plagiador. Pode se tratar de uma coincidência enunciativa), todos nós queremos um paraíso, seja o sujeito religioso ou pragmático, todos querem um lugar bom onde deitar cabeça e viver bem. Ser.

Por que começo o texto com um parágrafo, tão, digamos, ambicioso em discutir coisas de tanta complexidade? Por causa de uma peça que me despertou a epifania. E que peça! Falo de Autobiografia Autorizada de Paulo Betti, que vi no correr de Setembro, ainda em 2016. Sim, Paulo Betti, o ator global. Não que isso queira dizer alguma coisa, quando se trata de teatro, onde a beleza das artes cênicas de fato aparece, e com uma força… Ali não havia espaço para se pensar na carreira televisiva dele. Alguns, aposto, foram ao teatro vê-lo por causa de sua fama, mas devem ter deixado de lado esse detalhe, tão besta parecia, ali, diante de todo o potencial mágico da peça. Bonita, deixo logo claro. Falava de memórias. Infância…

O que dizer da interpretação de Paulo? Ótima! Teve colhões para encarar um monólogo de duas horas inteiras. Muita coisa, até pra quem já é experimentado no ramo. Tem de ser mesmo muito bom ator para aguentar o tranco. No entanto, não é a questão puramente técnica que me chamou atenção. Ah, não, longe disso. Quando vi a peça acontecendo diante de meus olhos, tive uns estremecimentos, sabe, assim que o ator propôs um acordo entre ele e público: iremos viajar no tempo, nobres cavaleiros, para uma época em que nada era como é, onde talvez ainda coubesse um pouco de ingenuidade nas pessoas, da boa ingenuidade, claro, e não dessa da qual se valem certas figuras de poder político para se perpetuarem ad infinitum. Venham! Voltem comigo a ser crianças. Ao menos, peço que  fechem os olhos e escutem o que tenho para contar, e se deixem levar pela maré do verso, se deixem viajar para os já distantes oceanos da infância…

Inveja! Digo que senti inveja. Verdade. Ele falava de uma infância bonita. Uma que nunca tive. Não que eu tenha sido um menino torturado desde pequeno. As tais provações começaram na adolescência, fase de experiências duras para quase todo ser que fala e anda em duas pernas. Infância mesmo, tive, mas urbana. Sem tantas fantasias. Muito video-game e brincadeiras controladas por pai e mãe temerosos de que algo acontecesse com os filhos jogando bola nas ruas. Nela não havia nada daquilo que Paulo Betti falava: paisagens de interior com plantações a se perder de vista, os brinquedos simplórios, o encantamento rotineiro pelas pequenas coisas. Sem grandes exigências. Talvez aquela vida faça adultos mais bonitos, que sejam capazes de enxergar o que há de profundo nas coisas. Talvez, digo, pois tudo é relativo…

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Como num sonho, do qual não se quer acordar.

Sonhos meus… Ele dialogou com todos. Sonhos de uma vida mais tranquila, nas ruas de uma cidade menor, onde todos se conhecem e dão bom dia, não porque a etiqueta manda, mas por gostarem uns das caretas dos outros. E quando não gostam… Um pouco mais de sinceridade para deixar claro, mas sem ser rude. Ah, e aquelas conversas em roda num bar, todos contando causos, dizendo suas lições populares ouvidas noutros cantos, inventando moda, e o tempo passando, assim, bem devagarinho… Cheiro de chuva na terra, umas simplicidades mineiras, como um bom prato de arroz e feijoada. Bom demais! Paulo Betti contava a sua vida ali pra gente, mas era como se  nos falasse de uma vida que poderia ter sido minha, sua também, ou de uma que ainda poderia ter, caso um dia houvesse coragem para um retiro numa cidade pequenina do interior.

São boas as peças que fazem pensar. Sentir! Viajar para além da cadeira. Fiquei imerso durante a performance do ator. As luzes mudavam de cor, a casinha cinematográfica ficava azul, o pano de fundo numa cor equivalente, e logo estávamos em outro plano de recordações. Noutra hora ele só nos contava as coisas engraçadas, e o cenário como que avermelhava, numa alegria que não ficava só na gente, mas reverberava! E vinham as tristezas, nostalgias de passados longínquos, sofrimentos dele e nossos também, pois quem é que ficara livre de perder um pai, uma mãe, de se decepcionar com um amor? E dava até vontade de chorar, se homem não tivesse essa mania de se fazer de forte, pelo menos umas duas lágrimas haveriam de rolar… E como se não bastasse, com os sujeitos e sujeitas todos alquebrados de tantas emoções num curto espaço de tempo, lá vinha ele dando uma de locutor da década de 60, e erámos inteiramente transportados para aquela época, e já não que queríamos partir, vontade nossa era ficar ali, agarrado aos bancos do teatro, só ouvindo, para sempre hipnotizados pelo não vivido.

A peça provocou em mim, algo parecido com o que Guimarães Rosa me provoca em suas obras: Nostalgia do que eu não vivi. Bonito, né? Mas também é escorregadio esse terreno… Daí surgem os perigos de querer o que não se tem. Sonhamos com o paraíso! Mas quem garante que a de ser paraíso? A vida no interior, quando conquistada e vivida, pode vir a ser o novo rotineiro. O banal. E assim morre o sonho e começa o pesadelo. Morre a buniteza da ficção que ensaiamos em nossas cabeças. Mas vem a pergunta: Então não há jeito? Vida nossa tem de ser assim, tal como é, por perigo de que se chegarmos ao paraíso, nos depararemos na verdade com um inferno? Não, creio que não seja essa a lição, se é que o objetivo da peça era dar uma lição. Tem mais a ver com: Conheça a ti mesmo. E aí saberás o que é. O que haverá de querer.

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Amor pelo vivido. Só assim se faz uma autêntica autobiografia.

E talvez seja essa a magia das memórias: um poder de ressignificação que o presente não tem. Toda vez que lançamos olhos ao passado, entendemos um fato, seja feliz ou terrível, por uma ótica diferente, e mudamos juntos, somos outros a partir do entendimento que temos de nós mesmos. Algo muda, nem que seja um pedaço pequenino da gente. Mais do que uma peça, o exercício proposto por Paulo Betti era o de nos entendermos, e assim, amarmos o que foi e o que é. Não o amor imbecil de quem aceita tudo como um destino irremediável, mas o de alguém que abraça suas origens e aquilo que a partir dali frutificou. E entende que se não foi de outro jeito, é porque não haveríamos de ser outra coisa, a não ser o que somos, e o que ainda poderemos vir a ser.

Tantas divagações, tantas… A boa obra de arte é feita de provocações. E nesse quesito, a peça de Paulo Betti nada deixou a dever. Até me fez pensar um bocado na infância… E vejam só! Nem era assim tão diferente da dele, mesmo que meus pés pisassem asfalto, e não chão de terra vermelha, boa de plantar, boa de colher…

Obs: Algo que não coube no texto, mas bom para divagar: Quando falam de autobiografias, pensamos logo em escândalos, nas polêmicas por trás da vida de um artista. Queremos a podridão! Ah, fulano usava cocaína e ficava doidão e por isso fazia essa arte tão abstrata e… Por que a vida dos outros só tem de ser feita da miséria? Do que há de mais podre? Paulo Betti mostra que a vida é mais do que o bizarro, do que a vergonha de um ser humano diante de seus maiores erros. Afinal, a vida também é poesia! Como cantava Gonzaguinha: É a vida, e é bonita, e é bonitaaaa…