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Contrato de natal

Natal, época de celebrar o nascimento de Cristo, de pôr a mão na consciência e analisar o próprios atos, celebrar a felicidade com os amigos e perdoar quem nos fez mal, certo? Errado. Natal é apenas mais uma data comercial, na qual tudo se resume às compras. Não é permitido deixar ninguém sem presente. Pai, mãe, avó, primo, aquele tio chato, o cunhado inconveniente, a vizinha fofoqueira, o cachorro, o papagaio, enfim, todo mundo tem que ganhar presente. E as pessoas se espremem em lojas superlotadas, disputando qualquer centímetro quadrado só para garantir as compras natalinas.

É verdade que o Brasil passa por uma crise econômica de grandes proporções, mas nem isso foi capaz de fazer o brasileiro deixar o “natal” de lado. Todo final de ano é sempre a mesma coisa, a impressão que fica é que o povo, de maneira geral, parece ter assinado um contrato natalino. Neste contrato fica estabelecido que o cidadão tem a obrigação de ir para as lojas e comprar presentes de natal para todos os conhecidos, caso contrário não terá um “natal” digno e completo. Parece exagero, mas basta uma rápida olhada nos noticiários e nas entrevistas com os transeuntes (e eu te dou total liberdade para escolher a emissora). Quem faz a reportagem pergunta como estão sendo as compras, e o entrevistado diz que “ainda falta comprar alguns presentes, que não pode deixar ninguém de fora”. Como assim? Você realmente tem que presentear todo mundo? Tudo se resume às compras, não parece existir um significado por trás disso, nem ao menos um pingo de senso crítico diante dessa situação. A tradição de comprar presentes nessa época do ano remete à passagem bíblica na qual Jesus, recém nascido, é presenteado pelos três reis magos (a saber eles são Gaspar, Baltazar e Belchior). Mas nos dias de hoje é bem capaz de se encontrar quem desconhece a referida passagem. Aliás, é bem capaz que quem esteja se espremendo nas lojas nem ao menos seja praticante da religião cristã, mas apenas pegou a carona natalina, com direito a todos os itens deste feriado.

Sou apenas um rapaz latino americano…. ops, Belchior errado!

É simplesmente triste ver que um feriado de grande importância para um determinado credo tenha se desvirtuado de maneira tão baixa. E mais triste ainda é saber que os próprios praticantes desse credo (sim cristãos, a bronca é com vocês!) contribuem para reduzir uma parte dessa tradição a um grande jogo capitalista. Voltando à questão do contrato, há uma outra cláusula que diz que o “verdadeiro natal” precisa ter uma ceia farta, repleta de quitutes e um peru gigante assado na mesa, com muitos convidados para degustar os típicos pratos natalinos. Para encher a mesa vale chamar qualquer um, até aquele vizinho carrancudo com quem você não troca nenhuma palavra sequer durante o ano. O problema aqui não é a ceia em si, mas a glamourização excessiva em cima disso, de modo que a quantidade de convidados (e de comida) seja mais importante do que a qualidade. Ora essa, se for para dividir a ceia, que esse momento seja compartilhado com quem realmente valha a pena, não importa que sejam muitos ou não.

Enfim, o que está sendo criticado aqui não é o natal. A data em si é muito importante para os cristãos, pois não se trata apenas do fator religioso, mas também do aspecto sócio-cultural existente nesta data. O significado e a ideia original desse feriado também são de extrema importância. Se unir em comunhão, fazer um retrospecto do ano que passou e desejar votos de um futuro melhor são coisas que deveriam ser feitas todos os dias do ano, e não em uma data específica. A crítica vai para esse circo anual que o comércio e a mídia chamam de natal. As compras desenfreadas fazem parecer que o único propósito do natal é sair dando presentes para o maior número possível de pessoas. Existe um episódio do seriado South Park que trata muito bem essa questão – e com muito bom humor, diga-se de passagem. O combate entre Jesus Cristo e Papai Noel é uma forte alegoria dessa questão. Jesus, aquele que originalmente deveria ser celebrado no natal em uma disputa contra o bom velhinho que sai distribuindo presentes na noite natalina. Ou seja, ocorre aí um conflito no qual uma das figuras natalinas é supervalorizada em detrimento da outra. Aquele que deveria simbolizar o verdadeiro motivo do natal se torna um mero coadjuvante, e a cada ano que passa essa discrepância fica cada vez mais evidente.

Quem é o verdadeiro astro no natal?

A intenção deste texto não é desmerecer a celebração natalina, e muito menos ficar passando falsos moralismos. Dizer que o natal está perdendo seu significado e se tornando uma data cada vez mais comercial (se já não virou) é chover no molhado. A intenção por trás dessas sinuosas linhas está em propor a você, caro leitor, um senso crítico quanto a essa suposta obrigatoriedade de ter que comprar presentes para todos os seus conhecidos, refletir se a tal ceia farta é de fato necessária. Pode ser que você nem esteja tanto afim de participar de toda essa “festividade”, mas ainda assim o faz por causa de uma ideia incutida pela sociedade e pela mídia.

Para finalizar quero dizer que esse contrato não está restrito ao território brasileiro, uma vez que é de conhecimento geral que vários países “celebram” o natal seguindo exatamente as cláusulas deste contrato – vide o opulento natal dos nossos amigos ianques. Ou será que também pegamos esse contrato como mais um produto de exportação norte americano?

Diogo Muniz

Amante do Rock e Heavy Metal, intensamente moderado ou moderadamente intenso, guitarrista nas horas vagas e torcedor do E.C.Mamoré.