tumblr_on55d0uBxc1w1ymxw_og_500

Corra! (Get Out! – Jordan Peele – 2017)

img 1

Chris Washington (Daniel Kaluuya, de Black Mirror) é um jovem negro americano que decide passar o fim de semana na casa dos pais de sua namorada branca Rose Armitage (Allison Williams, em seu primeiro grande filme), e se encontra na direção de uma situação muito perigosa e bastante macabra.

Get Out! tem a proposta de ser um filme de terror, mas com uma crítica social elevada envolvendo as questões raciais dos Estados Unidos, algo que fica bem evidente durante o filme e também na carreira do diretor Jordan Peele, que dirige seu primeiro filme de terror. Para quem não o conhece, Peele fez parte da equipe de comédia da MADtv e posteriormente fez uma série de comédia de sketch chamada Key And Peele, juntamente com o ator Keegan-Michael Key, onde as sketches geralmente eram de um humor focado em sátiras como crítica social de algum aspecto da sociedade, onde a cultura afro-americana era um tema recorrente, muito por causa do fato de o diretor ser negro, filho de pai negro e mãe branca.

A comédia também é uma influência relevante nesse filme. Segundo relatos do próprio diretor, ele é um fã gigantesco de filmes de terror, mas uma das inspirações para escrever esse filme foi uma história que Eddie Murphy contou em um show de Stand Up, onde ele fala sobre uma vez que foi visitar a casa dos pais de uma namorada branca que ele já teve.
O filme, mesmo sendo de terror, apresenta momentos onde a comédia é usada de modo satisfatório na maioria das vezes onde o alívio cômico é usado para equilibrar os momentos de tensão, onde geralmente o personagem que introduz esses momentos de comédia é o melhor amigo de Chris, Rod Williams da TSA (LilRel Howery).img 4

Antes de entrar em mais detalhes sobre o filme, gostaria de dizer duas coisas relevantes. A primeira é que sou negro, e a segunda é que sou extremamente “cagão” para filmes de terror/horror e afins.

As três etapas do filme são delimitadas pelo ritmo que o mesmo dá para os acontecimentos. A apresentação dos personagens não é muito demorada, e na cena inicial e depois na interação entre o casal principal já começam questionamentos sobre questões raciais do filme, onde Chris pergunta para Rose se os pais dela sabem se ele é negro. Isso infelizmente é um receio comum pois o racismo é uma situação complicada e extremamente desconfortável, e ser vítima disso pelos pais de uma namorada que ama seria um grande problema ou desafio para a continuidade do relacionamento.

Eis então que o filme começa uma longa etapa de desenvolvimento, onde o ritmo fica um pouco mais lento, ao mesmo tempo que põe o protagonista em diversas situações onde aquele famosa modalidade de racismo mais moderno, de pessoas que falam que não são racistas mas na verdade tem o racismo tão instaurado na cultura que acabam disparando vários comentários infelizes ou provocando situações constrangedoras, é jogado diversas vezes na nossa cara e de das diversas formas possíveis, de modo bem extrapolado. A finalidade primeira dessas cenas é de chocar a audiência com essas situações e mostrar para o expectador uma amostra do que é a situação de um negro em um ambiente predominantemente branco e elitista, que vão desde mudanças no linguajar habitual dos brancos para se comunicar com Chris, o fato dos pais brancos de sua namorada terem criados negros (que por sinal são muito estranhos e assustadores), a abordagem policial desnecessária, comentários de cunho sexual e por aí vai. O desenvolvimento é demorado também pois além de construir todo o clima do filme, todas essas situações racistas vão aumentado cautelosamente toda a tensão de Chris até o seu ápice enquanto constrói uma ligação entre ele e o espectador, além de também aumentar nossa simpatia por Rose, que é algo importante para a etapa de conclusão do filme.

img 3
A conclusão é também mais acelerada, se resolve muito rápido mas de maneira surpreendente e brutal, onde para mim os acontecimentos também são exagerados, mas tem uma simbologia muito forte, pois é um momento onde Chris, que escolhe ignorar todo o racismo que sofreu no filme todo, escolhe explodir e se liberar por de tudo que o incomodou.
Francamente, o filme é muito bom e bem montado, a direção é muito boa e várias situações do filme tem um porquê. É um filme bem fechado. Mas como terror mesmo eu não fiquei tão assustado, mesmo sendo uma pessoa que se impressiona muito fácil. O filme me deixou mesmo foi muito tenso durante o desenvolvimento, muito por causa das situações racistas.
Como já falei antes, sou negro e me enxerguei na situação do protagonista durante o desenvolvimento porque já tive experiência de várias das situações mostradas no filme e também entendo porque ele escolhe ignorar o racismo diante dele. Não é uma questão dele não ligar, isso de fato incomoda, mas depois que você passa a vida inteira sendo vítima de vários atos, você passa a ignorar várias coisas porque sabe que é difícil isso acabar. Você pode até argumentar, mas em maioria dos casos isso piora ou não há como mudar algo, pois o racismo é algo tão profundo na cultura de sociedades que já passaram por épocas de escravidão que mesmo que uma pessoa mude por causa de algum discurso seu, milhares de outras vão continuar com esses atos e não tem como ver um fim nisso, mesmo agora que há um maior ativismo por causa das redes sociais. Não é que a luta pela igualdade é inválida, as minorias tem que lutar por seus direitos mesmo, mas é extremamente complicado você lutar contra um sistema enorme de pessoas que são condicionadas desde quando nasceram a julgar você diferente e te botar pra baixo só por causa da cor da sua pele. E ver isso no filme, para mim foi doloroso e exatamente por isso que achei o final simbólico, como se fosse uma libertação do personagem.

Para concluir, Get Out! é um bom filme, Jordan Peele fez um excelente papel na sua primeira direção de terror, e vale mais a pena ver pelo debate racial, onde o filme põe o dedo em muita ferida nessa área, do que para se assustar, pois ele se aproxima mais de horror e suspense do que de terror de fato. Um filme mais que recomendado.

img 2