persona

Persona – Ingmar Bergman (1966)

Com uma introdução perturbadora, Persona talvez seja o trabalho mais experimental do diretor (pelo menos para esse trabalho e para os filmes que escolhi para abordar, esse foi o que me passou a impressão).

Diferente do terror leve colocado em “A hora do lobo” – Persona trás um terror psicológico ao expectador, a trilha sonora carregada nos faz sempre esperar o pior em cada take, e diferente das notas melancólidas e sofridas, o coração pulsa como se algo de ruim estivesse a espreita, pronto para arrancar o susto dos sustos.

Tive a má sorte de conseguir uma cópia do filme sem o áudio original, algo que na minha opinião, tira o trabalho de voz e construção de personagem que o ator teve tanto esforço para chegar.E como um típico brasileiro que deixa tudo para a ultima hora, tive que me contentar e me fixar bastante na miseanscene criado por Bergman como um guia.

Impressões de garoto assustado a parte, vamos ao teor do filme.

Elisabet Vogler é o centro da história, uma atriz que para de falar durante uma representação da peça Electra. E assim continua em silêncio. Alma, é a enfermeira que fica em cargo dos cuidados de Elisabet acompanhando de perto o mutismo da paciente, que pelos próximos três meses continua sem nenhuma melhoria nesse “estado” peculiar e até então, mal inexplicado. As duas vão para uma casa de praia, longe de todos e com o tempo (nada de surpresa) uma relação mais intima vai aparecendo entre as duas. Elisabet ainda permanece no seu silencio inquietante, mas vai mostrando interesse nas histórias de Alma, como se a cada “caso” contado pela enfermeira fosse um entretenimento que a deixasse longe dos pensamentos que a atormentavam, uma espécie de distração.

Muita água rolou no filme até aqui, mas é nesse ponto que para mim o filme começou de fato.Alma passa ter uma importância tremenda no filme, colocando Elizabet como coadjuvante, e o real se mistura com o sonho. A realidade foge de controle e o expectador (vulgo eu), juntamente com Alma fica vagando entre o que realmente está acontecendo e o imaginário.

O enredo se transforma, é quase como um outro filme dentro do filme. Alma fica encarregada de fazer a postagem de algumas cartas de Elizabet e quando nota que elas não estão seladas, não registe a curiosidade de ler, nas cartas, Elizabet diz a sua analistas as experiencias que tem tido com Alma, revela os segredos de alma e confessa estar gostando da experiencia de analiza-la. Um sentimento confuso cresce dentro de alma e todo aquele carinho que antes tinha pela paciente, se torna em pura raiva.

Persona foi assustador para mim por levantar esse contexto de “atuação de personagens no cotidiano” – Passei a duvidar de mim, sem saber quem eu sou e qual é o personagem que mostro para a sociedade. Bergman consegue trazer as mais intimas duvidas á tona. Elizabet, ao se prostrar no silencio, tenta abandonar essa sociedade conflitante que nos força a criar vários personagens em detrimento de cada situação em que nos encontramos. Não é um filme fácil de se ver, precisei de uma ou duas vezes para poder assimilar.

Avaliação CcW:  10/10

Achei uma cena em separado no youtube que condensa o que eu falei no artigo (ou pelo menos o que eu tentei falar) alma e Elizabet se perdem, quem é a paciente? Quem é a enfermeira? Quem é a pessoa que realmente precisa de ajuda psicológica? Quem é que está sendo mal compreendida? A Persona das duas em atrito, em fusão. Esse é o cinema de Ingmar Bergman,

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Nota: O titulo do filme aqui no Brasil é “Quando duas mulheres pecam”. Poderia começar mais algum artigo somente sobre essa estranha escolha dos distribuidores nacionais fazem com filmes estrangeiros. Mas nesse aqui particularmente me incomodou um tanto mais do que o de costume.

Com esse nome, que é muito forte e exageradamente beato, trás um pré conceito do filme antes mesmo de ser mostrado a história. Bergman cria aqui uma obra muito maior do que algo preso a dogmas religiósos. O conceito “Pecar” sequer é relevante ao ponto de ser o drama principal do filme. Em uma cena apenas é levantado uma questão referente a palavra pecado, mas nada que encaminhe o filme para tanto. Em uma das sessões de desabafo a enfermeira Alma diz para Elizabet que os erros da vida passada dela são pecados que queria poder deixar para trás. Uma flagelação do ser apenas, em um momento de construção da personagem dentro do filme, algo que foi feito para mostrar a impulsividade e bilateralidade de Alma.

Achei o filme completo no youtube, completo e legendado. Agradecimentos ao canal do Osvaldo Barreto Filho. Enjoy, e não se esqueçam de ativar as legendas.

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