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Da telinha para a telona: Marcelo Serrado fala sobre “Crô”

 “Crô”, dirigido por Bruno Barreto, estreia essa sexta (22/11) nos cinemas brasileiros e já é muito falado. O filme é uma continuação da história do personagem depois da novela Fina Estampa, que foi ao ar ano passado. Com muitas risadas garantidas e com um personagem já conhecido do telespectador, o roteirista Aguinaldo Silva traz algo de novo ao inserir o trabalho escravo de bolivianos como parte mais dramática do filme – até para não cair no eterno clichê da comédia.

Marcelo Serrado, que interpreta Crô tanto na novela quanto no filme, conversou com o Café com Whisky e falou de projetos futuros (e passados) e de como foi a recriação desse personagem que fez grande sucesso com o público brasileiro. Para conferir, é só continuar lendo.

 

CcW: O Aguinaldo Silva tem uma característica muito específica na hora de escrever um roteiro, principalmente com relação aos elementos dramáticos de uma telenovela. Você acompanhou esse trabalho dele? Teve a oportunidade de dar alguma sugestão?

Serrado: Eu não dei sugestão não, mas quando o filme estava pronto eu dei bastante sugestão assim de tempo, comédia, de ritmo… Mas o Aguinaldo já me conhece como ator. Ele entendeu muito as minhas piadas e incorporou elas na época da novela. E agora no roteiro acho que ele foi brilhante, assim, a maneira como ele abordou. Eu, quando fui chamado pra fazer o filme, a primeira coisa que eu falei foi “só faço se for o roteiro do Aguinaldo”. Porque, po, o cara que escreveu sabe, o personagem. Isso ficou muito claro no filme.

CcW: E você acha que esse trabalho dele com as telenovelas influenciou na inserção da crítica social presente no filme?

Serrado: Acho que sim. Acho que ele não queria criar só uma comédia burlesca, ele quis botar um elemento dramático no filme. De uma certa maneira ajudou no drama, que o Crô ficasse mais interessante aos olhos do público também. Fizemos algumas pré-estreias no Rio e São Paulo com dez salas em cada cidade, abarrotadas, lotadas; e gente no chão e as pessoas rindo… É o maior sinal de que o filme agradou o público entendeu, isso que já me deixou bem tranquilo e aí que eu falei “opa, acertamos!”.

CcW: É, a gente sabe que o seu personagem na novela foi um grande sucesso, tanto que agora virou filme. Como que foi vivenciar esse personagem agora no papel principal?

Serrado: No meio da novela ele acabou virando um dos personagens principais. Assim, a gente nunca imagina que um personagem como o Crô vai fazer tanto sucesso não é? Ele entrou numa galeria dos grandes personagens da TV como Carminha, Odette Roitman, como vários outros que ficaram. Eu nunca imaginei, virar um filme realmente foi uma coisa inesperada pra mim.

CcW: E foi bacana?

Serrado: Foi. Foi difícil no começo, reencontrar um personagem que já tinha deixado de existir há um ano; mas eu trabalhei pra que isso não ficasse tão distante.

CcW: Você também fez algumas participações em seriados de comédia, como A Diarista, Sob Nova Direção, mas também em minisséries como Gabriela. Qual é a diferença da preparação de um personagem pra uma comédia, como o Crô, pra esse outro tipo?

Serrado: Eu gosto muito de fazer comédia. Eu tenho feito muitas comédias no teatro e isso me ajudou muito. Mas com certeza eu estou indo muito nessa tendência. Estou estreando agora um quadro no Fantástico de humor dia 1o, um quadro meu fazendo vários personagens que se chama “A mulher da sua vida”, que eu acho que o público vai gostar muito. E dia 18 de dezembro eu estreio um especial de fim de ano com o Ney Latorraca, do Luis Fernando Carvalho, que também é um diretor completamente cinematográfico, um diretor que eu acredito muito na linguagem, que é um artista pleno como poucos que eu vejo. Então eu tenho feito coisas assim. Esse quadro no Fantástico é muito bacana, acho que as pessoas vão se divertir muito me vendo fazer comédia, mas coisas diferentes. Faço um velho, um negro, um playboy, faço um monte de coisa.

CcW: E é mais fácil fazer um personagem pra comédia ou pro drama?

Serrado: Acho que os dois são difíceis. É difícil fazer bem o personagem, fazer um bom personagem. Eu vou a procura de um personagem independente do veículo. Acabei de fazer uma peça com o José Wilker onde eu fazia um garoto que era autista, “Rainman”, inclusive aqui em BH. Então é sempre bom fazer bons personagens.

CcW: E teve alguma inspiração pra fazer o Crô?

Serrado: Várias. Um documentário chamado “Santiago” do João Moreira Sales, que eu até faço uma homenagem fazendo um gesto assim com as mãos no filme. É a história de um mordomo que serviu muito uma família no Rio de Janeiro chamado João Moreira Sales, né, um documentário incrível que me ajudou muito. David Alvarez que era um garoto que tinha um cabelo assim. Vi ele na boate um dia e falei “cara, esse cabelo é genial” e botei o cabelo no Crô. Então peguei coisas reais, o Crô não foi montado em cima de viagem da minha cabeça, foram coisas reais. Uma colcha de retalhos, eu posso dizer.

CcW: E como é fazer um personagem homossexual em uma sociedade em que eles ainda são muito marginalizados?

Serrado: É bacana, eu acho que qualquer coisa que se puder fazer pra quebrar algum tipo de preconceito é sempre importante né. Talvez ajude um pouco isso, por ser um personagem lúdico, divertido, e tal. Não cria um preconceito ou quem tem o preconceito se diverte, pensando “ah, que cara engraçado!”.

CcW: Você acha que o papel é um pouco civilizador?

Serrado: Nunca pensei muito sobre isso, sobre essa questão. Mas eu acho que qualquer coisa que ajude a tirar qualquer tipo de preconceito é muito importante pra nossa sociedade.

CcW: E você acredita que o fato de o Crô ser mais “estereotipado” ajuda no aspecto cômico?

Serrado: Eu acho que ele não é estereotipado, ele é um cara melancólico e verdadeiro ao mesmo tempo. O público mesmo sabe identificar o que é falso, eu jamais teria sucesso se fosse um personagem sem verdade, entendeu? E o Crô ganhou todos os prêmios do ano de ator, competindo com Avenida Brasil, com atores maravilhosos. E por que que ele ganhou todos esses prêmios? Porque o público acreditava nele. Assim, o estereótipo dele vem em cima do tipo dele, mas a verdade dele está lá.

CcW: É verdade. E pra finalizar: a gente sabe que o Bruno Barreto é considerado um grande diretor brasileiro, conhecido por O que é isso companheiro?, que foi até indicado ao Oscar, e também Última Parada 174, mais recente. Como é que foi trabalhar com ele?

Serrado: Um grande diretor como você mesma falou, de cinema. Um cara que tem uma sensibilidade muito grande e que também deixa criar. Ele sabe que eu tinha um personagem muito na mão e me deixou, sabe? “Vai Serrado, vai”.

CcW: Te deu uma liberdade, né?

Serrado: Me deu uma liberdade de improvisar, ou então me mostrou os caminhos dizendo “aqui não tá tão bom, vai por aqui”. Um cara sensível, inteligente, com muita qualidade.

Nota do CcW: 06/10

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