elysium

Elysium – 2013

Texto por Pedro Mancini

Elysium talvez seja um dos lançamentos mais esperados do ano. Primeiro, porque é o próximo filme do mesmo diretor de Distrito 9 (Neill Blomkamp), uma obra que foi bem recebida (e com razão). Segundo, porque temos a presença de Wagner Moura em um filme de Hollywood, e é sempre bom vermos atores daqui participando de filmes do exterior e tendo seu talento reconhecido. Também temos Alice Braga no elenco, mas não é novidade vê-la em filmes americanos (como em “Eu sou a Lenda” e “Predadores”). Apesar de Wagner Moura ser a atração principal para nós, brasileiros, vou falar sobre o filme num geral primeiro.

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A história se desenvolve num futuro onde as pessoas mais ricas da Terra criaram um local para elas viverem no espaço após a população do mundo crescer muito, e esse lugar se chama Elysium (nome baseado na mitologia grega, os “Campos Elíseos”, que seria o paraíso). Já na Terra a situação não está boa: tudo lá foi deixado de lado, e todos vivem em condições precárias. Isso, claro, gerou uma espécie de resistência, liderada por Spider (Wagner Moura), que viaja para Elysium de tempos em tempos com algumas naves, entrando clandestinamente para que as pessoas da Terra possam usar as cápsulas medicinais que curam qualquer problema que o corpo de uma pessoa possa ter; tecnologia que existe apenas no mundo perfeito dos ricos. Porém, as defesas do lugar são encarregadas a Delacourt (Jodie Foster), uma oficial rigorosa do governo que usa métodos questionáveis para defender o local onde vivem, abatendo as naves clandestinas sem hesitar e usando agentes infiltrados na Terra, que na verdade são criminosos extremamente violentos, como Kruger (Sharlto Copley). Falando na Terra, quem também vive lá é Max (Matt Damon), que tem um passado de crimes (como roubo de carros), mas no momento tenta viver sua vida honestamente, trabalhando em uma fábrica. Ele cresceu com Frey (Alice Braga), uma amiga de infância que se tornou uma enfermeira e também sua paixão. Certo dia, Max, trabalhando na fábrica, é acidentalmente exposto a uma radiação extremamente violenta e possui apenas 5 dias de vida, levando-o à procurar Spider na intenção de ir a Elysium e usar uma das cápsulas para se curar, mas durante esse processo, ele se encontra em uma missão muito mais grandiosa do que apenas salvar sua própria vida.

Bem, vamos aos comentários sobre o filme. Há semelhanças entre Elysium e Distrito 9, como por exemplo o cenário da Terra: aquele esquema de cores meio marrom, meio bege, e visual estilo favela. Aliás, o visual do filme é muito bom, tanto a Terra pós-apocalíptica (que além das favelas conta com os arranha-céus de Los Angeles completamente devastados, apesar de infelizmente só aparecerem em planos panorâmicos aqui e ali) quanto o mundo utópico que é Elysium (completamente o oposto da Terra, com cenários belíssimos).

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Outra semelhança entre os dois filmes é o teor crítico, lidando com diferenças sociais e preconceito, apesar de que em Distrito 9 tal crítica é bem mais sutil, enquanto que Elysium joga na sua cara o que ele quer dizer. Eu particularmente prefiro a crítica estilo Distrito 9, o uso do sutil deixa tudo mais interessante. Mas enfim, isso não desmerece a crítica que Elysium faz. Quando fui ver o filme eu estava esperando algo mais “bobo” em relação a isso, algo que não refletisse de fato uma crítica sincera que o diretor queria fazer e sim uma tentativa de chamar atenção e fazer o filme parecer profundo. O que eu vi foi o contrário: na verdade há pequenas coisas interessantes que acrescentam a essa crítica perfeitamente, como quando mostram o hospital na Terra, completamente lotado e sem espaço para atender todos (lembrei do SUS na hora), ou quando um dos médicos diz que “aqui não é Elysium” em um diálogo que claramente faz alusão às condições precárias de trabalho que alguns hospitais possuem (e algo que aqui no Brasil identificamos muito bem, em especial nos hospitais do interior). Também temos críticas ao ambiente de trabalho e até ao atendimento de serviços públicos (onde Max tem que tentar se comunicar com uma máquina, numa cena bem humorada, mas refletindo sobre uma triste realidade). Na verdade, quando ouvi falar sobre o filme, o conceito me lembrou um pouco Metrópolis (de 1927, dirigido por Fritz Lang), mas não podemos comparar os dois pois a crítica, apesar de semelhante (e articulada de maneira parecida), trata sobre um tempo diferente e sobre uma situação em especial referente à sua própria época (o que faz toda diferença na construção do filme). Mas, apesar disso, talvez possamos considerar que Elysium é uma espécie de releitura moderna de Metrópolis (apesar de não tão bom quanto).

Além da crítica e do visual, temos também uma boa trilha sonora. Mas nem tudo na vida é um mar de rosas. Os personagens em sua maioria deixam a desejar, apesar de termos alguns interessantes como o vilão Kruger, que é completamente detestável e ao mesmo tempo possui seu carisma, e já dizia Hitchcock: “quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme”. Outro personagem interessante (se não o mais legal do filme) é o Spider. Wagner Moura chegou com tudo em Hollywood, pois simplesmente destruiu em sua interpretação e com um personagem que é extremamente relevante para a história.

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O fato de se tratar de um filme de ação, blockbuster hollywoodiano, abre alas para vários clichês do gênero que foram, sim, utilizados. Alguns não chegam a incomodar, mas outros parecem subestimar o espectador, como por exemplo em uma cena dramática que claramente se sustenta por si só com um simples diálogo, uma só fala ou um olhar, mas insistem em colocar músicas tristes orquestradas ao fundo, slow-motion e flashbacks sobre boas lembranças, o que deixa tudo muito escandaloso e não consegue te emocionar. Outro problema está um tanto quanto incluso nesses clichês, que é o fato de que o herói rouba a cena quando qualquer coisa importante precisa ser feita em um momento de ação. Claro, ele é o herói e merece destaque, mas o caso é que quando o pau quebra, todo soldado treinado e armado até os dentes vira um completo incompetente e tudo fica nas mãos de Max, o que é simplesmente jogar fora qualquer personagem que podia ter potencial para ser interessante (o que nos explica o porquê de termos poucos bons personagens de verdade). Pra finalizar, temos uma coisa que também esteve presente em Distrito 9, que é a violência: o filme é bem mais pesado visualmente do que eu pensava que seria, e grande parte dessa violência toda é desnecessária (como uma granada explodindo e arrancando o rosto de um cara detalhadamente), com exceção de uma cena de cirurgia pela qual Max tem que passar, que ilustrou muito bem o porquê de ninguém além dele querer se submeter àquilo.

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Mas, no final das contas, temos um bom filme de ação e ficção científica que entretém o público, e os clichês citados, mesmo os incômodos, não chegam a torná-lo completamente previsível (pelo contrário, algumas partes me surpreenderam). Se você leu isso, se esse tipo de filme lhe interessa, e agora está se perguntando se vai ao cinema assistir ou não, eu particularmente recomendo. Acho que é uma boa diversão, e também espero ansioso pelo que Neill Blomkamp venha a dirigir futuramente.

Avaliação CcW: 7/10

Trailer:

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