Esquadrão Suicida

Esquadrão Suicida (2016)

ATENÇÃO: Aviso que não sou nenhuma nerd das HQs. Portanto, não sou xiita em relação as adaptações. Meu interesse é ver como isso vai trabalhar dentro da narrativa cinematográfica. Inclusive, sou a favor de mudanças nas histórias ou acréscimo de novos elementos, desde que funcionem.

Dito isso, vamos para uma rápida análise de um dos longas mais aguardados de 2016 – Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016):

Escrito e dirigido por David Ayer (Corações de Ferro, 2014), Esquadrão Suicida se apresenta como uma espécie de sequência dos acontecimentos de “Batman Vs Superman: A Origem da Justiça”. O longa se inicia com a ideia de Amanda Waller (Viola Davis) para a criação de uma força tarefa usando os piores dos piores [isso, os caras realmente maus]. O plano mortal é sustentado pelo questionamento feito após a morte de Superman: “e se o próximo Superman não for tão bondoso quanto o último?”.

Assim, Amanda obtém a aprovação da Agência Central de Inteligência para criar a Força Tarefa X, formada por alguns dos personagens mais caóticos do Universo DC: Pistoleiro (Will Smith), El Diablo (Jay Hernandez), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale ­Akinnuoye-Agbaje), Amarra (Adam Beach), e a espirituosa e insana Arlequina (Margot Robbie). Para que o estranho grupo de vilões trabalhe em conjunto, é injetado no pescoço de cada um deles recebe um nanoexplosivo. Ou seja: se rebelou, morre.

Esquadrão Suicida

Para completar o time, temos o coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), que assume o controle do grupo; auxiliado por Katana (Karen Fukuhara), uma jovem perita na arte da espada japonesa; além de Magia (Cara Delevingne), uma arqueóloga que é possuída pelo ritmo ragatanga por um espírito de uma poderosa bruxa. Aliás, é ela o ponto principal para toda a trama em torno do grupo de super-vilões.

Esquadrão Suicida
Magia – com um look bem Samara Morgan

Esquadrão Suicida seria uma espécie de promessa para lavar a alma da Warner/ DC, que não tem conseguido emplacar seu Universo expandido de maneira tão atraente quanto a sua rival Marvel. Com tanta expectativa, o que se vê no longa-metragem não é nada animador.

Eu disse na introdução que gosto de determinadas mudanças feitas nas histórias ou até mesmo nos personagens, desde que isso funcione. Porém, é diferente quando se muda um personagem apenas para agradar o público. E sim, o primeiro problema é: o Joker – pois fica claro o quanto atenuaram o personagem para abranger o público, transformando-o em um vilão limitado. As poucas cenas do personagem são arremessadas na tela e não contém nenhum valor narrativo, não acrescentam em praticamente nada. Há certas cenas que são absolutamente incompreensíveis. Nem mesmo todos os esforços de atuação de Jared Leto (que realmente encarna na alma o personagem) conseguem salvar dos erros de montagem e de roteiro presentes no longa-metragem.

Esquadrão Suicida
Uma sessão de terapia nada saudável…

Um adendo: Outro ponto gritante é o seu amor adolescente por Arlequina. O Joker nunca teve condição psicológica nenhuma para amar alguém, pelo menos não de uma maneira saudável. Isso é inviável para alguém como ele (embora nos últimos anos a tendência de se empurrar seu romance ideial com a Arlequina goela abaixo tenha aumentado). O fato é que o relacionamento entre Joker/Coringa e Harley Quinn/Arlequina é um relacionamento violento e abusivo. Ele não a ama e ela é apenas um fantoche em suas mãos. Ou melhor, ele pode até sentir algo pela moça, mas ele sempre deixa claro que ela é descartável. O Joker é um psicótico, um lunático e o papel de louco-adolescente apaixonado simplesmente não encaixa em sua persona. 

Esquadrão Suicida

Por falar em roteiro, este é simplesmente confuso e irregular. Os primeiros minutos da película funcionam muito bem, unidos a um visual colorido inspirado na estética dos quadrinhos e dos games. Depois disso, é um verdadeiro carnaval. Há diversas frases soltas e diálogos que não possuem sentido algum. Uma coisa é você escutar um psicótico falar, trazendo seus conteúdos delirantes em seu discurso. Outra coisa é um filme quase inteiro com um “discurso psicótico” – e que não seja filme cult tipo Darren Aronofsky – por assim dizer.

Além disso, determinadas atitudes dos personagens são inesperadas ou pouco verossímeis: salvo com Arlequina, fica difícil ver ações espirituosas ou de pura compaixão repentinas vindas de personagens como o Pistoleiro, por exemplo.

De início a fórmula cenas de ação + chistes é até agradável, mas o recurso é utilizado quase à exaustão. Tudo isso para sustentar um argumento fraco. O elo forjado pelos personagens é pouco crível e cria-se uma unidade, uma ideia de família-grupo num passe de mágica, o que não dá tempo para o espectador digerir. Subitamente, a intenção de Ayer focou-se em transformar vilões em heróis, como uma espécie de Super Amigos – e olha que ainda tem a Liga da Justiça por vir!

Esquadrão Suicida
Só mais um repleto de easter eggs, preparando terreno para os filmes da DC

A trilha sonora também é um grande escorregão. Não que a seleção das faixas não tenha sido boa, mas a mixagem de som não foi tão competente assim. É como pegar uma trilha sonora de algum filme do Tarantino e colocar em um longa-metragem da Xuxa. Simplesmente não encaixa e uso exacerbado é cansativo.

Não há nenhuma sequência memorável em todo longa-metragem. David Ayer tem medo de arriscar e entrega nas telas um longa-metragem mediano, sem qualquer novidade e sem aproveitar o que tinha de melhor: os vilões quebrando a dicotomia entre “bem e mal”, relativizando as coisas, mostrando como boa parte do jogo é orquestrado na base do interesse. Uma oportunidade para falar daquilo que é politicamente incorreto, inquietante, desafiador e sujo, mas que Ayer joga pelo ralo.

Nota CcW: 05/10.

Esquadrão SuicidaFicha Técnica – Esquadrão Suicida (2016):

Título Original: Suicide Squad. Direção e roteiro: David Ayer. Produção: Charles Roven, Richard Suckle. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: John Gilroy. Elenco: Adam Beach, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Alex Meraz, Alyssa Veniece, Amanda Brugel, Ariane Bellamar, Ben Affleck, Brianna Goldie, Cara Delevingne, Common, Corina Calderon, Darryl Quon, David Harbour, Ike Barinholtz, Jai Courtney, Jared Leto, Jay Hernandez, Jim Parrack, Joel Kinnaman, Karen Fukuhara, Kevin Hanchard, Margot Robbie, Michael Murray, Sabine Mondestin, Scott Eastwood, Viola Davis, Will Smith. Gênero: Ação. Duração: 123 min.País: Estados Unidos. Ano: 2016. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures.

Trailer: