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Gata em telhado de zinco quente e sua assustadora atualidade

Estava procurando por algum programa para me distrair num sábado à noite, e lá estava a peça em cartaz no Teatro do Banco do Brasil, aqui, nessa Beozônte minha que não irei largar tão cedo. “Gata em telhado de zinco quente”. Interessante, pensei, um tanto ainda indeciso se ia ou não ver a peça. Conhecia o autor, um tal de Tennessee Williams, sujeito chegado a escrever textos polêmicos, mas me deu uma preguiça daquele tipo: “Ora, esse tal de Tennessee já morreu sei lá há quantos anos atrás, e suas peças devem estar com um cheiro de mofo terrível, ora essa, até parece que há ali alguma coisa atual a nos ser dita, a nós, seres nascidos em pleno século 21, e cercados por problemáticas tão mais complicadas do que essas bobagens que ele discutia a não sei quantos anos e…”.

Ia pensando tantas coisas juntas nessa minha cabeça, quando vi que na lista de atores do espetáculo estava um nomezinho assim, até conhecido sabe, uma tal de Bárbara Paz que já fez sei lá quantas novelas na globo, e é figurinha carimbada no meio artístico. E a síndrome do “quero-ver-de-perto-um-artista-da-televisão”, logo se apossou desse mero mortal, e me vi obrigado a comprar um ingresso, esquecendo por um instante que o tio Tennessee era um velho morto e enterrado décadas atrás, no século passado ainda, e pensando apenas que seria legal sim, ver uma atriz tão renomada a uns tantos centímetros de mim, como ver novelas 3D; o famoso tão perto que a gente tem medo que ele aperte o nosso nariz.

Ingresso comprado e fui ver, agora com uma leve curiosidade de entender como pensavam esses nossos antepassados tão distantes. Imaginei que ia conhecer um pouco das cabecinhas reinantes na época em que, com todo o respeito do mundo, a minha e as suas avós eram moças maravilhosas e de fazer qualquer marmanjo babar litros e litros por sua boca escancarada tal como o Máscara daquele primeiro filme, quando ele vê uma moça também muito bonita e fica tipo assim: “Ulálaaaaaaa!!”. Pois é, pois é, e lá me fui para o teatro, num endereço majestoso, digamos de passagem, um museu com arte de século morto e que mais parece a ossada de um gigante Leviatã arrancada sabe-se lá de qual fosso abissal, e eu lá pensando: “Mas é mesmo muito engraçado como o que é velho chama atenção, pela estranheza mesmo, sabe, tão inusitadas essas pilastras, essas bella-artes, e tudo o mais, tudo…”.

E adentrei no teatro e puxei uma cadeira e só faltou gritar: Bárbara Paz! Bárbara Paz!, brados altos mesmo, de quem quer ver se sujeita tão aparecida na televisão é feita de carne e osso, ou se é tudo maquiagem, até mesmo as caras e bocas performáticas que ela tem de fazer para se dizer atriz. E desejo meu não demorou para ser atendido, não, lá estava ela! Entrou no palco com uma camisola quase transparente, e que pernas ela tinha!, e estava lá, diante de toda a platéia e começando sua performance com uma expressão entre desprezo e agonia, e a sua primeira frase como que soando estranha demais não só aos meus ouvidos, mas acho que aos de todos, tão diferente era, tão… “Eles não têm pescoço! E fazem tanta bagunça esses monstrinhos sem pescoço que…”.

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Bárbara Paz! Bárbara Paz!

Ela falava de crianças, adoráveis crianças saltitando pela casa e derrubando caríssimos vasos chineses como acontecem naqueles filmes onde alguém tem de pagar o pato no lugar dos monstrinhos sem pescoço. Monstrinhos sem pescoço… Não, acho que ela falava monstros mesmo, e com um desprezo sabe, de quem não aguenta nem chegar perto da coisa mal-falada, e logo se via que o tema da peça não era uma família daquelas propagandas de margarina, não, era sobre uma família mais, digamos, desarticulada, bonita apenas de longe, quando se olha para a casa onde moram, de muitos cômodos e jardins enormes e piscina aquecida e carros e mais carros estacionados numa garagem do tamanho de campos inteiros de futebol, mas que quando vista de perto, ah, tão diferente parece, como uma moça aparentemente bela que se encontra pulando carnaval, e que te encanta, seduz, mas que quando tira a máscara revela um buraco no lugar do nariz, um enorme e escuro buraco no lugar do nariz.

E eu nem pensava muito na Bárbara mais, não, quem estava lá não era ela, mas uma esposa que tinha um marido alcoólatra e que já fora muito famoso, um grande jogador de futebol americano (acho que era jogador americano… Ou qualquer outro correlato: jogador de golfe, beisebol e etc, etc, etc…) e que sofrera uma lesão grave e tivera de sair dos campos e agora passava seus dias tomando uísque, muito mesmo, tanto que apesar de saber que as copadas que o ator tomava no palco eram cênicas, eu tinha lá algum compadecimento por ele, de imaginar que se ele ficasse apertado de tanto beber e beber, não haveria meio de correr ao banheiro, de jeito nenhum, a peça grande daquele jeito, de duas horas e… Devaneios, devaneios! Mas o fato é que a história me capturou já na primeira cena. As duas horas de drama nem pareciam ter tanto comprimento. O tempo passou rápido, e de um jeito…

Olhos corriam de lá para cá, entretidos naquela dinâmica de um casal que não devia estar junto, não, logo se percebia que o marido não amava a esposa, e só estavam unidos ainda porque o tal paizão, dono de tudo e de todos, estava para morrer, e alguém ia ter de ficar com o dinheiro, ora essa, é para isso que servem os familiares, para receber a herança. E logo se entendia o título da peça: Gata em telhado de zinco quente. A esposa, nem Bárbara mais, mas mulher mal amada pelo marido alcoólatra e com sérias questões sexuais e antigas por resolver, fazia doce do mais meloso no tacho, mas nada funcionava, o marido bebendo o uísque e esperando por um tal de clique na sua cabeça. “Ainda não deu o clique, mas vou continuar bebendo, porque depois do clique é que vem a paz, e eu fico bem e…”.

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Olhem para essas caras! É ou não uma família feliz?

Família disfuncional ali, bem em cima do palco, e na primeira cena já dava uma agonia tremenda ver Bárbara que não era mais Bárbara fazendo o doce seu e não merecendo nem um olhar de interesse do marido, e ela então passando por uma histeria de fazer público rir, mas aquele riso doloroso, sabe, que custa a fazer lábios nossos alegres e ainda nos faz perguntar quando diantes do ridículo da esposa que quer atenção do homem: “Mas se é assim tão terrível esse casamento, porque é que estão juntos ainda, meu Deus, como é que um homem e uma mulher podem se suportar por anos e anos a fio, sem que o amor seja recíproco, e num estado de tal miséria que dói até o coração de ver, mesmo que seja só uma peça de teatro, e rimos sim, mas é tão amargo esse riso, mas tão amargo…”, e logo descobriamos que o paizão estava para morrer, e por isso valia a pena aguentar o inferno e mais um pouco. Ah, como valia!

E lá vinha um desfile obsceno de personagens interessadas na saúde do paizão, e que discutiam ocultos por trás de paredes seus planos mil para o futuro, e os segredos que devem ser mantidos dentro do quarto do casal, enquanto ouvidos invisíveis se encostam em paredes e escutam, ah, sempre escutam… E uma agonia crescente de quem estava assentado na platéia, e eu que havia ido ali ver peça de século anterior, mas que via coisa atual, tão atual que podia apalpar com essas mãos minhas e sentir, mas tinha medo, ora essa, de tocar aquilo que parecia tão viscoso de olhar, e fazia rir amargo, mas tão amargo…

Pensava eu ali, numa cadeira de teatro, em como anos vêm e vão e certas coisas não parecem mudar, não, ainda há gentes por aí que riem em rede sociais e se vestem bem e declaram versos bonitos diante da presença de criaturas da sociedade, mas que no sepulcro de seus lares tramam esquemas ordinários, ou sobrevivem como gatos em telhados de zinco: as patas queimando, mas dando um jeito de aguentar a dor insuportável da carne que queima, só mais um pouco, porque amanhã há de ser melhor, e ser marido e mulher faz bem para os ossos e para a alma, seja lá qual for o sofrimento que disso dependa, mas não se esqueçam que amanhã há de ser melhor, talvez ganhemos a casa daquele tio distante que está para morrer. Não ouviu falar? Está para morrer…

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Paizão e Bárbara.

E no ato derradeiro, a gata em telhado de zinco quente convoca o marido que não a ama para um sacrifício final, um filho que traga luz ao mundo e faça de suas vidas algo com mais sentido, e que venha a ser útil depois que o pobre paizão morrer… Ah, coitado do paizão! E a Bárbara que eu nem lembrava mais que existia como pessoa física, dizia a última fala e depois os aplausos, atores todos fazendo reverências para o público, e eu me levanto também, ora, tenho de ser educado, mas a agonia que outrora esteve na cara da Barbara agora sorridente de terminar mais uma jornada artística, agora está é na minha cara, e não vai sair de lá tão cedo, não vai mesmo. Como é que pode um homem morto e enterrado a não sei quantos anos, saber de tantas coisas assim, hein, e ainda fazer sentido tamanho nos dias de hoje? Como é que pode… E lá vinha outra pergunta cretina: quantas propagandas de margarina publicadas em feeds de redes sociais, escondem por detrás da imagem da mãe e do pai e dos filhos rindo, histórias como essa, se não forem todas elas assim, se não forem…

Obs 1: Deveria dar mais detalhes técnicos sobre a peça, certo, então aqui vai: Bárbara Paz é uma ótima atriz, acho que já sabiam disso, e todos os outros envolvidos na peça também, os quais não vou citar os nomes aqui, pois eles não são atores globais, entende? Mas são bons e merecem receber pelo ingresso, cada um deles, confie em mim, não são da globo, mas tem um padrão para além daquele celeiro de novelas que ninguém mais aguenta ver.

Obs 2: E peço novas desculpas por não dar tantos detalhes técnicos. Vamos lá: Cenário… Ok! Criativo e adequado para uma trama tão longa e que se desenvolve num ambiente só e sem maiores prejuízos, mas creio que isso seja resultado das rubricas do autor (para quem não sabe e não cansa de aprender coisas novas, a tal da rubrica são observações que o autor coloca no texto referentes a como ele deve ser encenado ou montado. Por exemplo: E deve haver uma laranja fatiada em quatro metades em cima de um piano, e a personagem Jucineia deve entrar berrando como se o próprio demônio a perseguisse. Tenderam?), o tal velho que fala coisas atuais demais, e não do diretor em si, embora o diretor tenha participação importante na disposição da cena e afins. Bom, era tudo isso o que eu tinha para dizer. A peça realmente assusta pela atualidade e isso é o que há de mais vital a se destacar.

Obs 3: Opa, esqueci de outra coisa… Guarde aí na tua cachola a seguinte frase: Nunca duvide dos mortos. Nem dos gênios de outrora. Tennessse realmente sabia do que falava. Afinal, ele escrevia sobre gente como a gente. E o mundo muda, mas nós caminhamos mais devagar, no compasso das primas tartarugas. Por isso certas obras tendem a continuar sempre atuais. Tratam de matéria prima um tanto previsível, sabe, no pior sentido, claro. As exceções são raras, e eram matéria prima para os românticos, idealistas por demais, quase sempre tão iludidos em esperar tanto de… Gente!

Obs 4: A peça continua em cartaz em BH até 28 de novembro. Depois vai para outras partes. Você que mora nesses lados de cá: Corre lá, que ainda dá tempo!

Ah, e antes que eu me esqueça… Tome lá cinco cafezinhos e uma garrafa cheia de whisky por esse grande espetáculo. Como dizemos aqui em Minas: Bom demais, sô!

xicara-c1Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.