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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Adaptações sempre geram longas discussões em relação a fidelidade da produção cinematográfica em relação a obra adaptada, seja um livro, uma HQ, um desenho, etc. Entende-se sempre que algumas mudanças são necessárias, principalmente porque a linguagem cinematográfica tem a sua própria “gramática”, por assim dizer.

No caso de Ghost in the Shell [GitS], há que se levar em conta que o fator fidelidade é um tanto quanto relativo. Embora o escopo do cultuado filme animado de 1995, dirigido por Mamoru Oshii, seja parecido com o mangá original escrito por Masamune Shirow*, a história em si ganha contornos completamente distintos. Aliás, cabe dizer que todas as discussões filosóficas e existenciais que são tão cultuadas por alguns fãs são praticamente inexistentes no mangá. Isso sem contar a série animada. Portanto, dentro da própria franquia não se pode falar de uma “fidelidade” estrita, pois cada mídia e trabalho acabou por desenvolver seu próprio enredo – e os mais puristas devem considerar esse fator.

Primeiramente, há que se fazer uma ressalva: não espere uma adaptação literal, pois o caso de Ghost in the Shell tem a sua peculiaridade.

Então, comecemos:

Sinopse

Dirigido por Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador, 2012), A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell se passa no ano de 2029, em um mundo completamente multi-cultural. A trama acompanha a Major Mira Killian, uma híbrida de humano e ciborgue, uma verdadeira arma que compõe um esquadrão de elite: a Seção 9. Ela e sua equipe dedicam-se ao combate a crimes cometidos com uso da tecnologia. Agora, eles precisam aniquilar um hacker, denominado Kuze, cujo objetivo é deter os avanços da cibernética. Nesse meio tempo, a Major é constantemente atormentada pelos resíduos de memória presentes em seu cérebro.

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O Positivo

O filme surpreende pela estética, mergulhando profundamente no universo high-tech / cyberpunk tão conhecido da franquia – e também já visto em outros filmes, tal como o clássico Blade Runner (1982), por exemplo. Jess Hall faz um trabalho impressionante em Fotografia, combinado com a Direção de Arte de Matt Austin. Cada detalhe é simplesmente admirável. A mistura de cores vivas e chamativas com o tom acinzentado urbano confere um certo charme ao filme.

A trilha sonora de Clint Mansell é outra preciosidade a parte, que confere um plus nas cenas mais exuberantes e nos momentos de ação. O diretor, Sanders, não faz nenhuma cena inesquecível, mas consegue orquestrar as sequências de ação de forma excelente. Inclusive, há um plano zenital com a equipe da Seção 9 que, embora não acrescente nada para a narrativa em si, é um pequeno deleite visual. A mise-en-scène encanta. E claro, o fã é constantemente agraciado com cenas icônicas do filme de 1995, bem como outras referências a Innocence, Stand Alone Complex, etc.

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Em relação ao elenco, Scarllet Johansson incorpora os aspectos da Major do filme de Mamoru Oshii, como uma personagem taciturna, decidida, firme e que literalmente mergulha em reflexões acerca de sua própria identidade e humanidade. Ademais, até a forma de andar e os trejeitos corporais são bem representados, cai como uma luva. Takeshi Kitano também rouba a cena com seu Aramaki superboss, o chefe da Seção 9. De modo geral, o elenco é bem escalado e ainda ressalta o aspecto multi-cultural do contexto em que a trama se passa.

O Negativo

Apesar de todo apelo emocional para os fãs da franquia, existem aspectos técnicos que devem ser considerados e que pesam negativamente em uma avaliação geral do filme. Talvez o grande pecado dessa versão de GitS seja justamente esperar que o público conheça previamente a obra (o que inclui os filmes, série de animação e até mesmo o mangá). Portanto, o roteiro, adaptado por Jamie Moss e William Wheeler, parte do pressuposto de que o público já está familiarizado com a trama e o universo diegético de GitS. Além de tomar os fatos como normais e corriqueiros, algumas resoluções são completamente esperadas – o que sacrifica o ar de mistério que poderia ser útil na trama. Sendo assim, o desenrolar de vários acontecimentos se dá de forma abrupta, sem a menor explicação ou consideração com o espectador. Nesse sentido, essa recusa em dialogar com um público maior é um verdadeiro tiro no pé.

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Outro ponto negativo é que a fusão de Kuze (Michael Pitt) com o vilão “Mestre dos Fantoches” funciona parcialmente, pois a performance de Michael Pitt não contribui muito para que este seja um “vilão” digno de uma grande película. Digo “vilão”, pois há uma certa “brincadeira” com a dicotomia bem x mal, demonstrando que não existem papéis muito bem definidos e estáticos, fugindo do clássico maniqueísmo. Infelizmente, o roteiro pouco favorece desenvolvimento do personagem em cena, gerando efeitos drásticos. Nem mesmo quando sua verdadeira motivação é revelada, isso não chega a impactar e ter real importância dentro do filme – muito menos para o público geral.

Por fim, Sanders não ousa em explorar a trama que tem em mãos, entregando uma fórmula básica batida de sci-fi + cyberpunk + ação, que era bem comum a 30 anos atrás, mas que não possui nada de novo no mercado atual. Todo o questionamento existencial feito pela Major é reduzido a enigmas rasos, que se recusam a explorar o que faz a “natureza humana” ser considerada como tal, os limites da tecnologia e por aí vai. A parte dramática, de modo geral, fica a desejar.

O Veredicto

Sabe-se da dificuldade de transpor um universo tão rico para um longa-metragem. O acerto se dá por prestar homenagem a obra de GitS como um todo. Não somente isso, mas Sanders toma o material original e lhe dá uma nova roupagem, o que é digno de mérito.

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O problema visceral foi tentar agradar fãs e fazer um filme padrão ao mesmo tempo, tal como tentar agradar a gregos e troianos. Dessa forma, às vezes fica no ar que A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell parou no meio do caminho (certamente, o fã ainda sairá em vantagem).

O desfecho simplório abre a possibilidade de continuações, mas ainda há muito o que melhorar se o estúdio realmente deseja fazer jus à franquia.

Nota CcW: 07/10

* ADENDO: Para quem quiser conhecer um pouco mais da obra original, o mangá de Masamune Shirow, recomendo a review escrita por Rachel Asakawa: https://goo.gl/0g1ks5.

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Ficha Técnica – A Vigilante do Amanhã:

Título Original: Ghost in the Shell. Direção: Rupert Sanders. Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler. Produção: Ari Arad, Avi Arad, Steven Paul. Fotografia: Jess Hall. Montagem: Neil Smith. Direção de Arte: Matt Austin. Elenco: Chin Han, Chris Obi, Joseph Naufahu, Juliette Binoche, Michael Pitt, Michael Wincott, Peter Ferdinando, Pilou Asbæk, Rila Fukushima, Scarlett Johansson, Takeshi Kitano. Gênero: Ficção Científica / Ação. Ano: 2017. Duração: 107 minutos.