alma urbana

Insolência Urbana

Para início de conversa, gostaria de situá-los um pouco: apesar de eu ter sido uma pessoa muito tímida, até uma certa época da minha vida fui também bastante simpática. Porém, conforme fui descobrindo que o mundo é cheio de pessoas incompetentes e/ou babacas, percebi que simpatia era qualidade que, quando não estava sendo desnecessária, causava efeito inverso do desejado e atraía exatamente essas pessoas que eu gostaria de evitar. Por fim, eu não abandonei de vez a simpatia, mas não saio distribuindo gratuitamente por aí. Mas ficar mais intolerante com a falta de senso alheia não me poupou de ter que dividir algumas partes da minha rotina diária – como utilizar transportes públicos. E é justamente disso que comentarei hoje.

Não sei se isso também ocorre em outras cidades, mas nós, belo-horizontinos temos todo mês uma nova edição do “Jornal do Ônibus”, com divulgação de eventos pouco interessantes e fotos de pessoas desaparecidas em preto e branco. E em algum momento, resolveram permitir a participação dos usuários dos ônibus, que poderiam enviar sugestões para o que vieram a chamar de “Gentileza Urbana”. Ainda estou em dúvida sobre isso ser mais uma das nossas pérolas do humor involuntário ou se a ideia inicial era realmente tirar uma com cara de nós, que temos o transporte público como parte da rotina. Se algumas das sugestões de gentileza beiram o absurdo, os desenhos complementam e terminam de criar o absurdo da situação. Resolvi selecionar alguns para fazer alguns comentários:

 

Eu, assim como a grande parte dos usuários de ônibus somos a favor que esse item deixe de ser uma gentileza e passe a ser uma obrigação urbana. O assunto é batido, então meu comentário é a respeito da ilustração: A pessoa incomodando com música alta nunca foi um tio bigodudo com uma… vitrola. Cadê o cara (permitam-me o estereótipo) de cabelo descolorido e bermuda caindo? Cadê o grupinho de estudantes saindo da escola? Por que um tio bigodudo?

E já que estou reclamando, se é uma gentileza urbana não ouvir música alta, porque diabos os ônibus suplementares possuem caixas de som embutidas? Se um celular (ou vitrola) tocando pontualmente já incomoda, imagine ter que fazer todo o trajeto tolerando o gosto (muitas vezes duvidoso) do motorista com caixas de som espalhadas pelo ônibus inteiro?

Então o negócio é o seguinte: Como vocês, Srs. Funkeiros e afins (e nesse caso eu consigo imaginar o tio bigodudo também), não devem ouvir música sem utilizar o fone de ouvido, vocês estão autorizados a cantar. E nós, mal humorados sensatos, não devemos nos incomodar. Afinal de contas, vocês são felizes e nós não. Fim de papo.

Ok, eu prefiro fazer minhas viagens sentadas, especialmente quando estou carregando mochila e lendo algum livro ou revista. Longe de mim levantar a bandeira do feminismo também – defendo ideias, mas não me prendo à nenhuma ideologia, (talvez eu fale sobre isso em outro momento). Mas nem eu, nem nenhuma mulher somos menos capazes de realizar um trajeto em pé apenas por sermos desprovidas de um pênis. Não precisa ser um cavalheiro, apenas tenha bom senso e ofereça pra segurar minha bolsa. Está de bom tamanho.

gritar

Afinal, pode ou não pode cantar? Estou confusa. E o que um papagaio e um cavalo (?) fazem dentro do ônibus?

Me desculpem pela grosseria, mas EU NÃO VOU SER CORDIAL COM O CARA CHATO PUXANDO ASSUNTO DESNECESSÁRIO AO MEU LADO. Gentileza urbana mesmo é não puxar assunto com a mocinha de cara fechada sentada ao seu lado (especialmente se ela estiver lendo ou utilizando fones de ouvido) e, caso você realmente queira socializar e tiver perguntado sobre o clima ou qualquer assunto desinteressante, não insistir se você estiver recebendo respostas monossilábicas. Dou bom dia, agradeço, peço licença e dou informações com toda a boa vontade do mundo, mas como uma boa introspectiva, só gosto de conversar quando vale a pena então… não.

parkour

Eu não entendo muito isso de “ceder” espaço. Quer dizer, eu tenho um corpo e possivelmente alguns anexos (bolsa, sacola…). A não ser que eu coloque-os para ocupar um banco, não há muito o que fazer para ceder espaço. Pela imagem, deduzi que pode ser direcionado a quem pratica le parkour dentro dos ônibus (não que alguém já tenha visto algum… enfim.)

O motivo da escolha desse foi essencialmente pessoal, visto que preciso me justificar já que sou o tipo de usuário que não senta na janela. Enfim, em defesa da minha atitude, preciso explicar que faço isso com o objetivo de estabelecer uma comunicação com os outros usuários. Não priorizar o local da janela é a minha maneira de dizer um simples “Vou descer em algum dos próximos pontos, estou aqui para facilitar as coisas” ou “Bom dia. O ônibus está relativamente vazio, e eu prefiro fazer a minha viagem sozinha. Se possível, dirija-se a outros lugares, onde as pessoas provavelmente não se importam tanto com isso”. Se a pessoa insistir em se sentar mesmo do meu lado, eu vou aceitar que a minha mensagem não foi passada de maneira eficiente ou que a pessoa realmente gosta daquele lugar. Posso sugerir? “Gentileza urbana é evitar sentar ao lado de quem não priorizou o lugar da janela, incomodando um usuário que deixou claro ser cheio de frescuras”.

nariz

Nada a comentar sobre a sugestão, na verdade acho bem válida. Poderiam até refazer para uma versão mais atual, escrito “Escrever nos assentos já é vandalismo”. Mas reparem quando eu comentei das ilustrações, era por coisas como essa: repararam no nariz fálico do garoto? Talvez seja uma homenagem ao Tobe, personagem do Gus Morais… Ou pelo menos é essa a possibilidade que eu prefiro acreditar.

Termino aqui meus comentários mal humorados. Quem sabe em breve não apareço com minhas sugestões para a categoria?