Invocação do mal (The Conjuring)

Texto Por Pedro Mancini

É bem claro como podemos observar que o cinema “mainstream” tem suas tendências, mesmo que ela varie de gênero pra gênero. Por exemplo, nos filmes de ação, recentemente temos as diversas franquias de super-heróis. Já se tratando de terror, a moda agora parece ser espíritos e possessão demoníaca num geral. “Baseado em fatos reais” ou não, diversos filmes como esses têm pipocado pelas telonas já faz um tempo, talvez mais frequentemente a partir do sucesso que foi “Atividade Paranormal”. O novo filme que segue essa linha é “Invocação do Mal” (The Conjuring).

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Uma das primeiras coisas que nos é apresentada na história é que ela é baseada em fatos reais. Eu, claro, fui pesquisar um pouco sobre a história real (até porque o filme é deveras fantasioso e dramático na maior parte, deixando o que poderia ser real bem escondido ali no meio). Os fatos registrados sobre o que aconteceu com a família Perron se encontram em um livro escrito por Andrea Perron, separado em três partes. Na época ela tinha apenas 12 anos, e demorou 30 anos para publicar a história.

Assim como no filme, tudo começa com o casal Roger e Carolyn Perron comprando uma casa modesta em um belo terreno, para viverem com seus cinco filhos. Já haviam morado nessa casa cerca de 8 gerações de famílias, apesar de que grande parte desses moradores não tiveram um final feliz; carregam consigo histórias assustadores de mortes, incluindo suicídio. De acordo com depoimentos de Andrea, desde o primeiro momento que chegaram à casa, era possível notar a presença de espíritos que vagavam por ali. Alguns até sem más intenções, que ignoravam a família ou davam um beijo de boa noite nas crianças. Além disso, haviam os clássicos casos de objetos movendo sozinhos, ranger de passos, etc. Poucos eram os incômodos (o mais preocupante sendo um barulho de algo batendo contra a porta), mas eles foram o suficiente para que a família convocasse o casal Warren (Ed e Lorraine Warren). Aí a coisa começa a desandar, pois acabam por acordar um espírito chamado Bathsheba, que supostamente, de acordo com uma lenda, praticava bruxarias e sacrificava crianças para os Dovahkiin (algum gamer leitor lembrou de Skyrim?). O espírito era agressivo e tentava afastar Carolyn da casa (de acordo com Andrea, a fazia passar por coisas pelas quais nenhum ser humano merecia). Toda tentativa do casal Warren apenas piorava as coisas, até o ponto em que um padre do Vaticano teve que ir à casa benzê-la, e mesmo assim, disse que ela não poderia ser limpa. A família dos Perron demorou 10 anos para se mudar.

Com isso em mente, ao assistirmos o filme, podemos notar semelhanças entre ele e a história original, de fato, mas ainda assim, o uso do “baseado em fatos reais” já é claramente uma tentativa de deixar o espectador assustado mesmo após ver o filme. Isso com certeza serve para que quem assista o filme não durma em paz sem pensar que vai acabar sendo possuído por um demônio, ou ser agredido fisicamente diversas vezes, e que apenas um exorcismo poderá salvar sua vida. Afinal, é real, não é? Não, aparentemente não é bem por aí, apesar de que, para frisar essa ideia, usaram fotografias reais durante os créditos finais do filme, mostrando a verdadeira família Perron, os verdadeiros Warren, e verdadeiras fotos do caso, o que na verdade foi um ótimo uso de imagens documentais, devo admitir.

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Bem, deixando o “real” de lado, vamos ao filme. Já vou dizendo que não vou julgá-lo dizendo se ele é assustador de fato ou não, pois isso é muito relativo; o que me dá apenas um sustinho pode ser o maior pesadelo para outra pessoa, e vice-versa. Pois bem, a história foi basicamente resumida acima (sem nenhum spoiler, não se preocupem), então vou direto aos pontos positivos e negativos. Confesso, a sequência inicial é pavorosa (e não num bom sentido), já me deixando com um pé atrás com o resto do filme. Mas, por que não dar uma chance? Continuei assistindo com a maior boa vontade, afinal, há filmes nessa linha de espíritos e possessão que me agradam.

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Quando o filme começa de fato, até que é interessante. Usam a “fórmula” das coisas pequenas a princípio que vão se tornando coisas mais e mais assustadoras de acordo com o medo crescente dos personagens, “alimentando” o espírito maligno. Curiosamente, as pequenas coisas foram as que mais me deixaram aflitivo, e essa parte não dura muito no filme (assim como na história real, as coisas só pioram com a chegada dos Warren). Dou créditos para Carolyn (a mãe da família) sendo assombrada pelo espírito misterioso no princípio, em especial na parte em que ela brinca de esconde-esconde com sua filha; essa, sim, uma cena com o mais puro suspense, digna de deixar alguém tenso de verdade. Porém, isso não dura muito, infelizmente. Mesmo nesse início já temos o uso do famigerado “jump scare”, uma tática barata para assustar a audiência usando barulhos altos e ações repentinas em meio a momentos calmos (algo que não é abominável de ser usado, desde que, como tudo na vida, com moderação), e após as coisas irem de mal a pior, isso se torna ainda mais frequente.

Quanto à violência: quase não há. Pelo menos não a que se espera quando vai ver um filme de terror, com diversas mortes e sangue pra todo lado. Isso pra mim na verdade é um ponto positivo; abomino a violência “gore” desnecessária em filmes (lembrando que há exceções), mesmo nos de terror, pois ela apenas deixa o espectador repugnado; não é medo, é nojo. Apesar disso, não é um filme leve, o que apenas frisa o que eu disse sobre a violência exagerada ser desnecessária: alguém não precisa ser partido ao meio no filme pra ele não ser recomendado para qualquer um. Se tratando de um filme de terror sobre espíritos e possessões, creio que seja desnecessário avisar isso para as pessoas.

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Agora, o que mais me incomodou aqui foi algo que eu jamais vi em um filme de terror antes: clichês “melosos”, daqueles que o diretor coloca no filme apenas para tentar te emocionar. Me pergunto: filme de terror por acaso é lugar de colocar esse tipo de cena? Num momento você teme pelos personagens e no outro você fica com vergonha alheia. Falando nos personagens, por acaso aqui eles chegam a ser gostáveis em sua maioria, algo que muitos filmes de terror deixam de lado mas é extremamente importante para o gênero (dói mais ver um personagem que você gosta morrendo, com certeza). Talvez seja porque grande parte do elenco são crianças e suas famílias e geralmente não queremos que elas sofram algo nos filmes (eu, pelo menos, sou assim), e nesse caso haveria controvérsias sobre o porquê de eles serem “gostáveis”.

Um detalhe que eu gostei no filme (que vou citar apenas por desencargo de consciência) foi um quesito técnico: a câmera que segue os personagens em planos únicos e, quando quer passar de um personagem para o outro, ao invés de simplesmente cortar a cena, a câmera passa a seguir outro personagem que passa pela tela e dá continuidade ao que está se desenvolvendo. Mas bem, deixando isso de lado e sem mais delongas, para finalizar o meu pensamento, creio eu que já coloquei minhas cartas na mesa, e a conclusão final? Só mais um filme em meio aos vários do mesmo gênero (e do mesmo tipo) que têm surgido; te entretém levemente (beeem de leve, mesmo) e pronto. Não é um filme que eu recomendaria, ao menos que você planeje ir assistir com os amigos para tomarem uns sustos juntos e rirem da cara um do outro.

Fonte da história real: http://www.terrorama.com.br/noticias:invocacao-do-mal-a-verdadeira-historia

Avaliação Ccw: 05/10