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Literatura brasileira: Ler ou não ler? Eis a questão!

Imagine a seguinte cena: Você está conversando com seus amigos sobre literatura. Circulam nessa roda diversos nomes, todos de escritores estrangeiros e nenhum brasileiro. Então você cita um dos artistas de nossa pátria amada e todos começam a criticar e a dizer que a literatura brasileira é difícil e chata de doer. É claro que essa não é uma regra geral, mas é o que costuma acontecer, ainda mais, quando se conversa com leitores ocasionais, aqueles sujeitos que leem no máximo uns cinco livros por ano, e só aqueles que estão em voga, como um Crepúsculo, um Guerra dos tronos… Não que sejam ruins. Detesto o primeiro, o segundo até leio, embora fique entediado em muitos trechos. Mas veja bem: a ideia aqui não é promover um discurso de ódio contra aquilo que não é verde e amarelo. Pretendo apenas defender a nossa literatura contra a ignorância daqueles que a chamam de um chute no saco. Há coisas boas por aqui, amiguinhos, ah, sim.

Um dos fatores que fazem as pessoas não gostarem muito da literatura produzida aqui, são as escolas. Isso mesmo meu amigo! O lugar que deveria nos ensinar a praticar a leitura de obras nacionais é o lugar que mata essa paixão antes que ela possa florescer. Nos obrigam a ler, em pleno sétimo ano, quando ainda somos muitos jovens e tapados, uns livros de uma complexidade terrível, cheios de termos que já não se usam a mais de um século, um linguajar que faz pesar nossos olhos e logo cabeceamos tranquilamente para o sono… Mas a culpa não é dos livros ! Um Machado de Assis tem o seu lugar. Assim como um Aluísio de Azevedo. Mas há época certa para que sejamos apresentados a esses sujeitos. Pode ser que um moleque do sétimo ano, já esteja preparado para assentar numa mesa e bater um papo gostoso com esses dinossauros da nossa literatura. No entanto, sabemos que isso é uma raridade. A maioria não tem estímulo de leitura em casa e chega na escola tendo pego em pouquíssimos livros, e os professores, sapientes do baixo estímulo literário que os seus alunos tem, mesmo assim se fingem de cegos e não os ajudam, ao contrário, os empurram na direção do abraço de Machados e Aluísios, mas é um abraço tão forçado que gera ojeriza. Imagine: você gostaria de ser atirado nos braços de um completo estranho, sem ao menos saber direito qual é o seu nome, de onde veio e para onde vai? É claro que não! E a experiência é tão traumática, que assim se cria o preconceito de que toda literatura escrita por aqui é tão chata como ouvir um sermão de nossos avôs. Só para constar, nada tenho contra os nossos queridos avôs. É apenas uma força de expressão, talvez, infeliz, mas nada além disso.

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Poxa, ele até que parece simpático! Dê uma chance só pro Machado, vai!

No contato com qualquer matéria, tem de haver preparo antes do sujeito se arriscar ao mais complexo. Em tudo, não só no campo das literaturas! Nos esportes, na vida, nas artes. Ninguém começa a ler a partir de um Oswald de Andrade. As exceções, crianças educadas com o que há de melhor desde pequenas, infelizmente não são a maioria, e temos de pensar a respeito da maioria, que é, como sempre, a parcela mais problemática, mais carente da população. E a maioria esmagadora das nossas crianças, só vai saber o que é um livro apenas quando entram na escola e passam por aquele estranhamento que costumam provocar as novidades: É de comer? Serve frio ou quente?

A literatura brasileira tem de ser servida aos poucos e em porções mais fáceis de digerir. Comecemos por uma literatura infanto juvenil. E não me venham com o papo de que esse tipo de literatura não seja terreno fértil para promoção de debates! Ora, até livros infantis, quando trabalhos por uma perspectiva correta, podem ser abundantes em formulações de pensamento crítico. O patinho feio! Pense na questão social, de uma pessoa ser desprezada apenas por não corresponder a um padrão de beleza. Temos ou não um ótimo assunto para ser debatido? O que falta é criatividade em sala de aula. E boa vontade.

E há tanta boa literatura infanto juvenil brasileira! O escaravelho do diabo é um clássico! Raro o cidadão que não o conheça. Aproveito para citar a série vaga-lume, da qual a obra citada faz parte, e que como um todo, com seu catálogo de dezenas e mais dezenas de obras com as mais variadas tramas, pode proporcionar os mais diversos debates no interior de uma sala de aula. Dê esses livros para um rapazinho. Ele os lerá, talvez desconfiado no começo, pensando: O que eu fiz para merecer isso? Mas o entusiasmo crescerá, pois são histórias simples, com ganchos que te puxam naquela ânsia por conhecer o desfecho. O mocinho se dará bem? O que vai ser do patife do vilão? Perguntas bobas, mas gostosas de se responder quando se é mais jovem e a coisa do bem contra o mal é quase tudo o que sabemos sobre a vida. E depois, quando começarmos a crescer e necessitarmos de questões mais profundas, aí sim, estaremos prontos para bater um papo com os crânios da nossa literatura e desfrutaremos da companhia de alguém do quilate de Machado.

Mas até lá… O caminho é longo! Muitos e muitos livros antes de se chegar ao que os acadêmicos chamam de cânone, a nata da nossa literatura, infelizmente, não apreciada por grande parte da população, por causa dessa educação ultrapassada que ainda vigora em nossas escolas. Mas você, querido leitor, que nutre algum preconceito pela literatura brasileira, ódio mesmo, por causas dos perrengues passados durante a sua educação básica, mas que tem o desejo de mudar a sua opinião, ou ao menos tentar, acalme-se, pois para tudo há remédio. Irei te indicar alguns bons autores para começar. Eles não escrevem da maneira dita difícil e são mais atuais, facilitando assim, na familiaridade durante a experiência de leitura.

Fernando Sabino! Brasileiro de nascimento e mineiro de sangue. Dele, indico para os mais jovens, o maravilhoso O menino no espelho. Trata-se de uma revisitação do autor à sua infância, transformando lembranças em situações que beiram o fantástico de tão surreais, naquela mescla entre realidade e fantasia, comum ao universo da criança, capaz de transformar qualquer cantinho de jardim num paraíso de múltiplas possibilidades. É um livro escrito numa linguagem simples e gostosa e flui com uma facilidade assombrosa, tanto, que de súbito nos assustamos ao percebermos que chegamos à última página. Seu sucesso foi tanto, que inspirou filme recente, lançado em 2014, homônimo da obra. Sobre esse, já não sei falar sobre a qualidade.

Outra sugestão, do mesmo autor, é O encontro marcado, romance de grande sucesso e de escrita mais madura, indicada a adolescentes, assim como a adultos. Uma coisa boa sobre o Fernando Sabino é que sua escrita não tende a mudar muito, mesmo entre uma obra e outra, e tem como padrão a escolha de palavreado mais comum, sem qualquer marca de pedantismo e sem tender para a linguagem truncada normalmente associada aos clássicos. O livro narra a história de um homem que busca um sentido para sua vida, dialogando assim, com um dos temas mais populares da filosofia: Ser ou não ser? Eis a questão! Vale a pena a leitura, pela já citada escrita agradável e pela suavidade da narrativa. Até quem não é entendedor, entenderá.

Cito também a brasileira Lygia Fagundes. Recomendo seus contos, pois dos romances conheço pouco. É uma escritora que gosta de experimentar em seus modos de narrar, e que costuma se aventurar pela vertente do fantástico, e, diga-se de passagem, com maestria, sem recair em clichês, sendo assim, de uma inventividade original em seus textos. Vale a pena procurar uns contos em separado para conhecer o estilo e depois se arriscar a uma obra completa. Procurem por Anão de jardim (o mundo pela ótica de um anão de jardim), As formigas (esse flerta um pouco com os temas do medo. Vale a pena!), e A caçada, que narra a viagem de um homem pelos interiores de uma tapeçaria exposta em uma loja de antiguidades, descambando assim, no terreno vasto do fantástico. Esses contos são muito fáceis de achar. Estão todos na internet. Basta largar a preguiça de lado e usar o google para algo mais do que ficar vendo nudes o dia todo.

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Uma das nossas grandes escritoras. Flerta até com o fantástico. Pare de perder tempo e vai lá bater um papo com ela!

Bom, por enquanto é só! Há muitos outros por aí, tão bons quanto Sabino e Lygia Fagundes, mas o tempo ruge e o espaço aqui é curto para enumerar todos eles. Creio que basta a leitura dos citados, para que você, leitor fiel, comece a sentir o gosto de uma boa história sempre fresco na boca e passe a ter medo de perder esse gosto, e se sinta compelido a ir à cata de mais e mais. E um dia você haverá de se sentar numa mesa grande, como aquelas de jantar que ocupam uma sala inteira, junto com autores de todas as épocas e estilos e nacionalidades, tendo largado o preconceito de lado, a mente aberta para todo tipo de nova experiência literária.

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.

  • augusto

    Excelente texto