music2-570x300

Manilla Road – Do underground ao cult

O que é necessário para uma banda fazer sucesso? um refrão grudento, letras fáceis e uma batida empolgante são alguns ingredientes importantes. Você pode até argumentar que esses critérios são bastante subjetivos, dependendo do gosto de quem escuta. Fazer um som que está na moda e sair divulgando o seu trabalho também contribui muito, sem contar que uma boa identidade visual faz toda diferença. Mas o mundo da música muitas vezes pode ser cruel, e mesmo quem se enquadra em todos esses critérios corre o risco de ficar na berlinda.

O Manilla Road é uma dessas bandas que sofreram esse tipo de injustiça durante muito tempo. Mesmo dentro do público do heavy metal há aqueles que ainda nunca ouviram falar dessa banda. Formada em Wichita, no estado do Kansas (E.U.A.), capitaneada pelo vocalista e guitarrista Mark Shelton, o Manilla Road apresenta um heavy metal de primeira qualidade, com canções marcantes e épicas, e letras muito bem trabalhadas, cujas temáticas abordam literatura, historia e mitologia. Seu primeiro disco, gravado em 1980, já apresenta de cara boa parte das características que o conjunto carregaria durante toda sua carreira. O trio composto por Mark Shelton (guitarra e voz), Scott Parks (baixo) e Rick Fisher (bateria) permanece junto até 1983, ano em que é gravado o disco considerado o mais importante de sua carreira, Crystal Logic. Entretanto, Rick Fisher sai da banda, pois não estava ficando satisfeito com o direcionamento que as composições da banda estavam tomando. Em seu lugar entra Randy Foxe, cujo estilo mais pesado e agressivo de tocar combinou perfeitamente com o sonoridade da banda. Com essa nova formação eles lançam discos ano após ano durante a década de 1980, sendo um período bem produtivo. Importante salientar que eles não fizeram uso da grande mídia em momento algum de sua carreira. Mesmo durante a década de 1980, época em que os vídeo-clipes eram bastante populares e importantes para ajudar a alavancar a carreira de novos artistas, o Manilla Road sempre preferiu se manter no underground. A justificativa para essa postura (conforme Mark Shelton disse em uma entrevista anos mais tarde) é de que se mantendo no underground, sem ajuda da grande mídia, eles teriam mais liberdade para escrever suas canções, sem se preocupar com possíveis interferências das gravadoras ou quem quer que fosse.

Crystal Logic - o clássico com status de cult
Crystal Logic – o clássico com status de cult

Essa justificativa faz sentido, por um certo ponto de vista, pois sem ter gravadoras dando pitaco no material deles, o grupo teria (como tem até hoje) total liberdade para compor, sem precisar se prender a regras de marketing. Analisando um pouco mais friamente, dá até mesmo para dizer que muita coisa ruim que temos na música nada mais é do que um monte de lixo empurrado pela mídia só para ter público e ganhar dinheiro em cima disso. Se possível muitos produtores de música “lixo” poderiam ter um material muito mais refinado caso não houvesse tanta interferência das gravadoras, mídias, etc. Veja bem, caro leitor, não estou afirmando nada como sendo uma verdade absoluta. O que estou propondo é apenas uma análise crítica sobre esse tipo de situação, pois além de oferecer lazer e cultura, é importante também transmitir conteúdo que cause algum tipo de reflexão que resulte em novas ideias. Portanto, caro leitor, reflita sobre isso e tire suas próprias conclusões.  

Pois bem, vamos voltar ao Manilla Road. Como eu dizia, eles estavam atravessando uma boa fase,gravando vários discos. Mas como toda história, sempre existe um pouco de conflito. No início da década de 1990, a relação entre o grupo começou a dar sinais de desgaste e algum tempo depois eles se separaram. Em 1994, Mark Shelton começou um projeto solo chamado The Circus Maximus, mas que de última hora foi lançado como mais um disco do Manilla Road. Por conta disso, esse disco soa bem diferente do resto da discografia do grupo – nem bom, nem ruim, apenas diferente.

Durante a década de 1990, a banda ficou completamente desativada, retomando suas atividades apenas em 2000, atendendo um convite para tocar em um festival. Mark Shelton recruta novos integrantes, com a inclusão de Bryan Patrick como novo vocalista, uma vez que ele ficou impossibilitado de cantar devido a problemas em sua garganta. Desde então, o Manilla Road passou a se apresentar como um quarteto. A princípio a ideia era de retomar a banda apenas para fazer shows ao vivo, mas felizmente eles voltaram ao estúdio, e em 2001 é lançado Atlantis Rising, que inicia a nova fase da banda.

Atlantis Rising - mergulhando de cabeça no novo milênio
Atlantis Rising – mergulhando de cabeça no novo milênio

A inclusão de Bryan Patrick como vocalista se mostrou uma decisão acertada, pois além de possuir um timbre de voz semelhante ao de Mark Shelton, ele era amigo e fã da banda de longa data, e portanto, ele se adaptou facilmente ao seu posto. Após alguns discos e algumas trocas de integrantes, outro fã é convocado para fazer parte da banda. Sendo assim, o alemão Andreas “Neudi” Neuderth assume as baquetas. E para completar o (agora) quarteto, temos Phil Ross no baixo, que teve sua entrada anunciada recentemente no site oficial da banda, substituindo o baixista anterior, Josh Castillo.

Como já foi dito acima, o Manilla Road é uma banda que, por opção, se manteve na cena underground, sem recorrer à grande mídia para divulgar seus trabalhos. Com o advento da internet e a facilidade de compartilhar e obter arquivos e informações, muitos artistas passaram a ter maior visibilidade, ampliando o seu público. Esse foi o caso do Manilla Road, que nos últimos tempos viu o seu público crescer consideravelmente. Por ser uma banda que passou tanto tempo na obscuridade, atualmente a banda possui um status de “cult”, lhe conferindo até mesmo uma aura quase mística entre seus fiéis fãs.

Encerro essa resenha com a esperança de ter despertado em você, caro leitor, a vontade – ou pelo menos a curiosidade – de conhecer um pouco mais essa banda e suas músicas. Apesar de não ter videoclipes super produzidos, é possível encontrar na internet (pelos youtubes da vida) gravações amadoras e semi profissionais dos shows ao vivo, o que ajuda a dar uma boa ideia da energia que os caras entregam no palco.

Manilla Road merece cinco cafézinhos e um whisky de brinde.

nota

Diogo Muniz

Formado em Letras, guitarrista nas horas vagas, amante do Rock e Heavy Metal em tempo integral. Intensamente moderado ou moderadamente intenso. Torcedor do E.C.Mamoré.