atrás dos olhos das meninas serias

Atrás dos olhos das meninas sérias

Definir as minhas impressões nunca foi o meu forte. Sempre busco ser o mais direto possível, mas sempre acabo sendo prolixo demais. Adjetivo esse, aliás, que mais se enquadra na descrição dessa peça teatral. Não vou mentir, saí incomodado da apresentação. Entretanto, ambiguamente Incomodado.

Digo isso pelo incomodo “bom”. Aquele que quebra o senso comum e te faz, ainda que a apresentação encerrada, pensar no que acabou de ver, pensar em como te influenciou e no quanto eu me identifiquei na peça como um todo ou em um teor específico. Revi meus casos amorosos no meu imaginário, todos os meus desejos reprimidos e representados, e naquele instante, ainda que sentado na minha posição no publico, participei intimamente do que estava sendo contado.

A Atriz Neise Neves em uma das variadas facetas de sua personagem.
A Atriz Neise Neves em uma das variadas facetas de sua personagem.


O incomodo “ruim”, veio com a abordagem demasiadamente agressiva. Não que eu seja algum puritano saudosista, apreciador da moral e bons costumes e blá, blá, blá. Mas me senti extremamente incomodado com o repetido uso do “porra”, “buceta”, “pau”, “caralho”, “cu”. Não havia a menor necessidade do uso para aumentar a tensão ou um ponto especifico da peça, nesse quesito. Até o momento do exagero, o clima sexual já estava bem implantado, a tensão entre as personagens idem, a agressividade de algumas atuações também. Então por que fazer uso exagerado de explosões verborrágicas? Para criar ênfase? Provocar? Instigar? Talvez, se ficasse depois da peça para uma resenha com os atores a ideia poderia me ser explicada, mas a partir do momento que entro como um espectador comum, e que a peça não me faz captar o teor na sua apresentação, e que me faz querer questionar o uso de determinado recurso, já não é mais cativa o suficiente para que eu me importe.

Minha “particular visão sobre tudo” é o meu maior norte e em muitas vezes o meu “freio de burro”. Já tenho uma carga e o conhecimento prévio de alguns conceitos que me agradam, e muitas das vezes, confesso, não me vejo suficientemente aberto para abordagens que fujam do meu conceito estético já formado, do que é a representação do agradável, emocionante, estonteante… Sublime. A peça não me chamou mais atenção do que o conceito que trouxe, e pequenos momentos de atuações, que não fugiram da minha obstruída visão cinematográfica sobre atuações. Claro que sei que tenho um certo receio por peças teatrais, ainda. Mas tento sempre traçar a diferença entre os meios de exibição e não fazer uma comparação errônea e muitas vezes premeditada sore um veículo, apenas por não ser o meu favorito.

Ação no palco

Não foi complicado perceber esse princípio na peça, por isso ela já entra como a primeira abordagem de Stanislavski¹. Todas as ações ali, independente do quão mínimas parecessem a priori, tinham um propósito na construção cênica. A atenção dos atores estava, se não na maioria, sempre focada numa série de ações físicas, que, por consequência, complementavam a cena e a peça, respectivamente.

Com um pouco de estudo em cima desse tema, é levantado três questões para a análise da “Ação no Palco”:

O que?: Uma ação em si, ou um dado.

Porquê?: Uma ação (dado) advindo de qualidade, uma informação.

Como? Uma informação advinda de mais qualidades, conhecimento.

Uso sempre o esquema de dado/informação/conhecimento e creio que ele entra bem na definição desses três pontos. Partindo de um ponto mínimo da peça, é possível fazer um entendimento mais amplo dessas três perguntas.

O cigarro é um dado, somente ele e mais nenhuma ação envolvendo ele não o torna nada em especial. É um dado como qualquer outro objeto de cena, advindo com o ato de fumar, ele já passa a ser uma informação, não do próprio objeto em si mas da construção da personagem (um ponto interessante até, quando vemos o ator Léo Quintão interpretando a personagem protagonista ele começa afumar, quando até o momento ele – ator – não havia feito). Saindo da construção do personagem e voltando a cena, temos o conhecimento, ou o que as duas outras informações combinadas acionam na trama. Hora, descontração, hora uma imagem um tanto quanto “Noir”. Com o objetivo, é claro, provocativo, tanto a personagem quanto ao publico.

Ator: Léo Quintão
Ator: Léo Quintão

Atuação em conjunto

Como disse anteriormente, a peça não me agradou muito. Mas esse detalhe em especifico, me chamou bastante atenção. A interação dos personagens, seja na sonoplastia para a criação do senário seja entre os próprios personagens, é bem dinâmica. Seguindo esse “módulo” da atuação em conjunto, pude sentir uma quebra de conformismo que normalmente sinto em peças e/ou filmes que vejo. Essa técnica tem como objetivo a não dispersão do ator, quando o mesmo não é o foco da cena. A interação com o publico e a troca de papéis, vinculadas com o acréscimo de outros personagens, é de fato bem empregada, e pela abordagem de Stanislavski, é importante essa interação entre público e ator.

Stanislavski e a ação psicofísica

Para autor russo, a ação representada – propositalmente representada – é o melhor caminho ou o caminho mais direto para as emoções.

Um ator está deitado no meio do cenário, inerte. E sem um aviso-prévio se levanta e começa a sua encenação. Energicamente. Literalmente aos berros, tirando de si e do publico, emoções das mais diversas. Podendo assim enriquecer a cena em especifico. Ainda temos uma ação mais amena. Como um abraço, um beijo ou um simples afago, cria uma outra quebra, que apesar de similar no objetivo (alcançar as emoções) nos trás uma calmaria, um sentimento mais suave e carinhoso entre as personagens, e novamente, com o publico. Mas ainda podemos ver outros dois pontos que nos trazem essa parte do método de Stanislavski, a atriz estática no inicio da peça, não carece de ações. O simples fato de estar ali parada esperando o inicio da peça os remente a uma ação, sim. Uma construção de conceito sobre o que veríamos, já é construída ali de imediato. E para fechar, no meu ponto de vista, o que considerei o melhor exemplo de Ação psicofísica, foi a sonoplastia e o aumento do tom de voz de ambos os atores. Esse artifício (e pude ver também observando o publico) incomodava, acalentava e provocava. Trazendo a carga de emoções do publico para junto podermos viver com aqueles personagens, o ponto da peça que estava sendo abordado.

01meninas

¹: Stanislavski foi um  foi um ator, diretor, pedagogo e escritor russo de grande destaque entre os séculos XIX e XX. Mais conhecido pela sua “criação” de um Sistema  para a interpretação do ator.

Prêmios e indicações

Indicado nas categorias Melhor Atriz e Melhor Ator, no prêmio Sinparc/ Usiminas 2008

Vencedor de dois prêmios no II Festival Nacional de Teatro de Teresina/PI – 2007, para Neise Neves (Atriz) e Léo Quintão (Ator Coadjuvante).

As imagens e informações adicionais foram obtidas no BLOG D PEÇA.

***Artigo postado originalmente em maio de 2014***