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Livro: Um Método Muito Perigoso

Tentar reconstruir os passos de figuras histórias através de seus documentos, correspondências e obras é uma tarefa árdua. Mesmo que várias peças se encaixem, formando quase um mosaico, sempre existirão vácuos, omissões e outras lacunas que deixam os investigadores e historiadores no lugar de uma espécie de “complementadores do vazio”, ou seja, em algum momento a narrativa histórica é mesclada com deduções e especulações. Foi ciente desse envolvimento entre o histórico e o imaginado que Jonh Kerr escreveu a obra Um Método Muito Perigoso – Jung, Freud e Sabina Spielrein: A história ignorada dos primeiros anos da psicanálise (A Dangerous Method: the story of Jung, Freud and Sabina Spielrein, 1993), um livro que conta os primórdios da Psicanálise e a relação entre as figuras de Sigmund Freud, Sabina Spielrein e Carl Jung. A obra também serviu de base para a adaptação cinematográfica realizada por David Cronenberg, em 2011, intitulada “Um Método Perigoso”.

John Kerr
John Kerr, o autor do livro

O livro tem como objetivo contar os primeiros anos do movimento Psicanalítico, em que seu criador, Sigmund Freud, após anos de isolamento em Viena, se aproxima de psiquiatras suíços – a chamada “Escola de Zurique”, a fim de difundir suas ideias. Logo, ele conhece o jovem e entusiasta Carl Jung, a quem Freud chegou a chamar de “filho e príncipe herdeiro” da psicanálise, e com quem viria a construir uma amizade forte, porém demasiadamente conturbada. O pressuposto é que Freud estaria interessado na vantagem “política” e no status científico dos suíços, enquanto Jung viu na psicanálise um meio de expandir seus estudos e pesquisas pessoais. Porém, a relação entre os dois proeminentes investigadores da psique humana sofre uma triangulação: entra no jogo a jovem russa Sabina Spielrein, ex-paciente de Jung que veio a tornar-se sua amante e, posteriormente, uma psicanalista freudiana. Sendo assim, o autor propõe que entre todo o desenrolar do embate pessoal e teórico de Freud e Jung, que acarretou em uma cisão completa entre os dois em 1913, Spielrein seria uma espécie de “elo perdido” entre os dois.

d031892d-ca0b-4865-959a-6be95bdcfc45A tradução para o português brasileiro, encabeçada por Laura Rumchinsky e publicada pela Editora Imago, deixa alguns pontos conflitantes em relação as terminologias utilizadas, tais como a velha discussão entre os termos “instintos” no lugar de “pulsões” – o qual expressamente optou-se por falar de “instintos” no livro. Porém, o que realmente deixa a desejar é a revisão, pois o livro possui alguns erros grotescos de ortografia, indicando uma ausência de uma revisão apurada.

Sabe-se que a história sempre toma os contornos e impressões de quem a conta. Dessa forma, é fácil enxergar as inclinações de John Kerr: sua antipatia pela figura de Sigmund Freud é evidente, chegando a pintá-lo com seus tons de pessoa autoritária, arrogante, dissimulado, adúltero e até mesmo traiçoeiro em relação àqueles que discordavam de suas ideias e concepções. Jung também não é poupado. Porém, o que assusta é sua veemente tentativa de colocar Spielrein como uma figura decisiva no desenvolvimento da psicanálise. Claro que a pesquisadora russa foi suprimida pela história, principalmente por uma história dominada por homens, mas as exigências de Kerr em relação ao papel da moça são deveras exageradas.

Por outro lado, talvez uma das críticas mais pertinentes no livro Kerr é sobre a criação do método psicanalítico, ou melhor, da ausência de um método nos primórdios do movimento que foi engolida por hipóteses dedutivas bem entrelaçadas em formato de discurso científico. Dessa forma, retoma-se um debate antigo sobre o que é a Psicanálise em si: uma ciência ou uma visão de mundo (weltanschauung, em alemão)?

Deixando as questões teóricas de lado, Um Método Muito Perigoso poderia ser um livro mais interessante do que de fato ele realmente é. A premissa e a história são muito promissoras, mas são igualmente esmagadas pela incapacidade narrativa de Kerr – que em determinados momentos segue seus devaneios teóricos sem ao menos contar nada em efetivo. Além, claro, de suas inclinações e tendências pessoais. O desfecho carrega a sensação de deixar as coisas soltas e em aberto, largadas ao vento, e nem mesmo o Posfácio consegue suprimir esse “vazio” da obra Kerr. Um método perigoso talvez tenha sido esse o do autor, que não conseguiu ser sustentado por ele próprio.

Livro: Um Método Muito Perigoso – Jung, Freud e Sabina Spielrein: A história ignorada dos primeiros anos da psicanálise. Título Original: A Dangerous Method: the story of Jung, Freud and Sabina Spielrein. Autor: John Kerr. Editora: Imago. Tradução: Laura Rumchinsky. Ano de publicação/ edição brasileira: 1997.