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O Alienista e a loucura indeterminada

Com certeza vocês, queridos leitores, já devem ter olhado para alguém e pensado: “Esse cara é doido de pedra!”. Os motivos? Ora, o sujeito talvez andasse por aí com um cabelo roxo e um uma barba sem lavar a mais de três dias, ou tivesse a mania de parar no meio de uma praça pública para gritar que alienígenas de alguma raça insectóide estão prestes a invadir a Terra para comer cérebros de militantes Pró Away Presidente. E talvez vocês estejam pensando agora: “E esse cara que tá escrevendo esse texto sem pé nem cabeça? É doido também! De jogar pedra até nele mesmo. Doido!!”.

Sei que os exemplos citados acima não são nada convencionais e parecem mesmo retrato de gentes que não regulam muito bem das ideias, ou como diziam os mais velhos, de gente com um parafuso a menos. Mas vá lá, por que esses sujeitos são doidos? Por que tem de ser considerados assim? O negócio é que chamar um e o outro de louco é coisa perigosa. Pois sempre há o risco de os doidos serem nós mesmos. Confuso? Ora, lembrem de um Einsten por exemplo. Com suas ideias por demais revolucionárias, acabou sendo considerado lelé da cuca por um punhado de cismados doutores de ciências, que com toda a certeza, acabaram tendo de engolir suas arrogâncias, quando viram o velhinho da língua pra fora surpreender o mundo com suas teorias da relatividade e afins. Sei que Einsten é um exemplo extremo, visto que a sua figura não contribui para sua defesa, mas vamos lá, peguemos um cidadão qualquer de nossas cidades brasileiras, um homem que viva do seu próprio jeito e rejeite religiões e acredite que não haja forças divinas regendo a ordem das coisas, mas que somos todos frutos de uma raça reptiliana vivendo lá pelos lados da galáxia 000929292 ou coisa que o valha. Doido? E pergunto de novo: Por que?

É estranho como em nossa sociedade certos sujeitos são alçados a posição de senhores lúcidos, enquanto outros sofrem com a incompreensão, com dedos em riste apontados para suas caras e gargalhadas soando em resposta a sua esquisitice. E por que? Talvez por pensarem diferente de uma maioria, por não concordarem com todos os As do limitado alfabeto social e preferirem ser um B ou um C. Quantos desses casos não testemunhamos por aí? Fulano não gosta de trepar. VOCÊ É DOIDOOOOOOO?, logo berram as vozes indignadas de todos aqueles que desacreditam de uma vida sem sexo nenhum. Beltrano acha festa de aniversário uma coisa muito chata e ciclano diz que Mamonas Assassinas fede. E lá vem o grito: VOCÊS SÃO DOIDOOOOOOOOS!?

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Doido, doido, doido!

Há uma certa relação entre costumes que fogem da regra e loucura. E quando digo loucura, nada quero com a ciência da psiquiatria, que tem lá seus parâmetros para definir quem é pirado e quem tem as ideias todas nos lugares certos. Quero chegar é ao X da questão entre nós mesmos, homens comuns desses mundão, que quando não concordam com o modus de viver dum sujeito, vão lá e julgam que ele só pode ter algum problema, ora essa, como é que não gosta de comer panetone no Natal? Deve ter um trauma, algo bem sério mesmo. Talvez tenha sido torturado por um tio maníaco por panetones e que o levava à sua padaria um dia após o nascimento de senhor Jesus, para obrigá-lo a comer os panetones sobrantes, todos eles, um por um, dos de passas aos de avelã com gotinhas pequeninas de chocolate, e ai se ficasse um grãozinho só para trás, ai se…

E assim caminha a humanidade, chamando os japoneses de malucos, só porque preferem ter namoradas virtuais, ou os Russos, sabe-se lá por qual motivo, talvez por gostarem demais de Dostoievski. A verdade é que fora os diagnósticos médicos, e sabe-se lá se são mesmo todos certeiros esses diagnósticos, a loucura é uma coisa sempre em aberto e passível de um sem fim de interpretações e significações. Roberto treme quando assobia. Doido! Natália conversa sozinha. Doida! Eu gosto de comer pão de sal com mel. Doido! Mas eu, logo eu, sempre tão normal, ser também doido? Ah, é sim, é sim, não escutou o que o doutor disse? Doido! Não à toa, há quem diga que o mundo é um grande hospício separado por alas…

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E quem não fica?

Os motivos para se condenar alguém a vestir camisa de força são inúmeros e podem ser culturais, como sociais, como morais, como educacionais… Mas são tantas as possibilidades e combinações possíveis que nos levam a olhar para uma cara qualquer, de um desconhecido mesmo, ou até de um amigo, e de uma hora para outra pensarmos: “Meu Deus do céu, mas como esse cara é…”, que começamos a enlouquecer mesmo, pois se tudo é loucura e nada é normalidade, o que será de todos nós, afinal? E é a isso que se propõe Machado de Assis  em sua obra “O Alienista”. Em uma época em que a ciência despontava como a grande senhora respondedora de infinitas questões, lá vem o tio Assis e questiona: Mas e se…

E o “Mas e se” se apresenta na forma de um doutor, o seu Bacamarte, que chega a uma pequena cidade do interior e resolve ali abrir o seu consultório. Algum tempo depois, não se contentando apenas com um consultório e tendo algum renome junto a indivíduos importantes, principalmente políticos, ele resolve abrir um hospício e tratar dos moradores problemáticos, uns pobres alienados sem lugar e nem chão para pisar, incapazes de perceber qual é a ordem das coisas, quais regras devem seguir. Raridades, as ditas anomalias da natureza, num sistema feito para girar sem engasgos. No entanto… o negócio cresce demais de tamanho, e o que era curiosidade, uma extravagância, vira o todo, uma generalização. Em uma cidade pequena, com não mais que um milhar de dezena de habitantes, a maior parte da população é trancafiada em celas acolchoadas e são poucos os que sobram saudáveis nas ruas, uns poucos com algum “juízo” em suas cabecinhas.

O interessante da narrativa são as constantes incertezas em torno da construção de uma teoria que consiga definir a loucura, dar-lhe contornos, um corpo que possa ser enclausurado e curado com remédios. O Doutor Bacamarte trancafia gente no hospício, solta alguns, mantém outros, solta mais alguns, e prende uns outros tipos, sempre num esforço de compreender o que é a loucura afinal, como devem ser e agir os loucos. Em certo momento, ele acha que as fraquezas humanas, as falhas de caráter, tem algo a ver com doenças psiquiátricas, noutro acha que são as virtudes, e fica nesse vai e vem, sem encontrar resposta nenhuma. Como a gente. Quantas vezes ouvimos um sujeito falar, ou lemos um texto e pensamos: “Eita, vai ser maluco assim lá no inferno!”. Mas passa o tempo, mudamos um pouco, e voltamos a ouvir esses sujeitos ou ler os tais textos e surpresa, há ali algum entendimento, e a impressão de que havia loucura ali, bem, ela desaparece.

Ah, e falando em desentendimentos, não posso me esquecer do seu Porfírio, o barbeiro da cidade com mania de revolução, e que com um golpe político inesperado, torna-se prefeito e passa a trabalhar junto de Bacamarte. E na sua gestão, quem agora vai para o hospício são todos aqueles que pensam diferente dele, do seu Porfírio. Assim não há oposição política. Não há o outro. O divergente. O estranho. Soa familiar? Ora, se soa, é um mero acaso. Pois duvido que você, querido leitor, tenha o costume de olhar para um qualquer, alguém que se vista diferente, que se expresse diferente, e pensar: “Mas esse aí…”.