coluna literaria

O Cristo Recrucificado – Nikos Kazantzákis

Na aldeia grega de Licóvrissi existia um costume que era religiosamente seguido: a cada sete anos, por ocasião da Páscoa, era encenada a Paixão e Morte do Cristo. Os protagonistas desta dramatização eram escolhidos entre os próprios habitantes da aldeia e o critério usado para essa seleção era, não só a maior semelhança física, como também o comportamento moral do escolhido.

Nesse mesmo período, chega na aldeia um grupo de esfarrapados de outra aldeia. Fugiam dos turcos que haviam invadido e saqueado a cidade onde moravam. Ao chegarem a rica aldeia de Licóvrissi Pedem proteção à população, que, influenciados pelo seu Pope (padre) se recusam a recebe-los e a ajudarem seus iguais,  somente a personagem “Cristo” sai em defesa dos refugiados – quando menos se percebe, o drama da Paixão de Cristo torna-se realidade.

Nikos Kazantizakis, como alguns leitores já devem bem saber, é também altor de uma obra famosa no mundo inteiro, “A ultima tentação” – aqui nesse livro, não temos uma abordagem tão diferente da de cristo sendo crucificado, já que existe a encenação e, por mais que não aja uma crucificação de fato, temos nosso messias sendo perseguido por um povo intolerante.

Não sou religioso, e de fato, muitas vezes consigo ficar irritado com doutrinas obtusas, juntamente com a percepção de como o conhecimento popular é altamente maleável, podendo ser facilmente moldado “em nome do bem de todos” mas com os objetivos particulares escondidos. O livro de Nikos é uma síncope de toda a hipocrisia que vemos não somente dentro do clero e de uma única religião, mas de lideres que, em nome de Deus, e do estado, são capazes de conduzir o povo que governa, a fazer atrocidades com seus próximos e embutir ideias próprias dentro de sua doutrina, ou melhor dizendo, modelando o conhecimento da forma que lhe cabe, com o pretexto de fazer o melhor.

Kazantzakis, vai aos poucos levantando não somente esse tema, bem como algumas alegorias sobre todo o povo grego, desde os tempos mais remotos aos da atualidade (visando que a atualidade dele era por volta de 1900 e algumas bolinhas quando o livro original foi publicado) – Podemos ver vários temas pertinentes ainda hoje embutidos em inteligentíssimas metáforas e hipérboles de encher parágrafos.

O suspense não existe no livro todo, em determinado momento a história fica completamente decifrável e até mesmo previsível, mas longe de ser um ponto negativo na leitura, pra mim, é uma característica notável para um romance ser imortal, e é exatamente o que permite, ainda hoje, ser uma história atual.

Vi uma semelhança imensa com um outro romance, “O auto da compadecida” de Ariano Suassuna – quem se arriscar nas pouco mais de 500 páginas de boa leitura na obra de Kazantzakis, e ainda ter fresco na memória o Livro de Suassuna (ainda que tenham visto apenas o longa baseado no livro) vai poder ver detalhes como a ambientação, a projeção de ícones e valores religiosos, a fé cega, a avareza de alguns personagens, a gula sendo encarnada por popes e senhores despreocupados com o lugar onde moram, até mesmo o helenismo.

Tudo na obra de Suassuna foi projetado por mim em Cristo Recrucificado. Hora vagando entre humor ácido, critica aberta a sociedade e valores culturais.

Já adianto que é uma leitura pesada, que por muitas vezes me vi pensando em desistir, mas com o passar das páginas, e a irritabilidade real de sobre alguns personagens (me senti uma dona de casa que acredita em novela global) fiquei com inveja maravilhado em como o autor consegue passar sua visão politica dentro de uma obra dessa relevância e talento.

Kazantzákis (8 de fevereiro de 188326 de outubro de 1957 ) nasceu em Megálo Kástro, a capital da ilha de Creta. O mais importante e famoso autor grego do século XX. O escritor, poeta e pensador, tem como obras mais visíveis (leia-se traduzidas) “Zorba, o Grego”, A última tentação” Cristo Recrucificado, Testamento para el greco. Formou-se na universidade de direito em Atenas e segue seus estudos de filosofia na França.

Um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo a Deus, quando necessário (Testamento para El Greco).” Kazantzakis

Sobre mais do autor, leia esse artigo aqui, está em inglês mas é uma boa leitura.