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O homem nas trevas

Fazia tempo que eu não via um filme tenso, e digo tenso, na questão de te fazer ter um pouco de medo em relação ao destino das personagens envolvidas na trama. Não que “O homem nas trevas” seja um primor nesse sentido. Não. Tem inúmeros defeitos, mas consegue cumprir com aquilo em que os longas atuais de terror e horror vem falhando miseravelmente: provocar alguma empatia em que assiste. Fazer o telespectador se sentir nervoso com a vista do monstro, do assassino farejando as suas presas, seja em casas abandonadas, em castelos arruinados ou nas ruas de uma cidade qualquer. Nesse ponto os envolvidos nesse trabalho tiveram êxito. Devo dizer que tive uma experiência no mínimo nervosa durante a minha sessão de cinema.

No entanto, ressalvas tem de ser feitas, a começar pelas personagens. A história gira em torno de um trio de ladrões: Alex, um rapaz mimado e que nos parece entediado com sua vidinha quadrada; Money, um bandido de quinta categoria e que não parece ter lá muito ambição na vida, a não ser se mudar à Califórnia e por lá ficar, quem sabe, cometendo os seus golpes; e Rocky, uma moça sufocada por uma família desestruturada, vivendo aquele típico drama da garota pobre contra o mundo. Logo de início, os três nos são apresentados de forma bastante superficial em pequenas cenas que se esforçam por resumir suas personalidades. Daí uma das falhas do filme: se aprofunda pouco nos temas do humano. Apenas Rocky tem sua persona mais trabalhada, sendo a única com a qual de fato nos importamos. E não demora para que fique claro o seu protagonismo, que tem grande peso no desenvolvimento da trama, sobretudo, em seus instantes finais.

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Os três encrenqueiros!

A questão de haver apenas uma personagem realmente carismática no time dos “mocinhos”, é um fator crucial para esse filme ter sido apenas mediano, e não bom, ou excelente. Pois em uma obra de terror, como tenciona ser “O homem nas trevas”, o elemento de maior importância é o afeto que desenvolvemos por aquelas pessoas na tela durante o tempo de exibição. Só sentimos medo quando há uma ameaça em potencial. E como não somos nós aqueles que experienciam a situação proposta por um filme, acabamos por assimilar os horrores sugeridos pelas personagens. Mas para que isso aconteça, tem de haver algum elo de ligação entre plateia e aqueles que atuam a ficção. Ou do contrário, para quê nos daremos ao trabalho de nos preocuparmos pelo destino de quem não merece a nossa simpatia? Torceremos logo por suas mortes, para que fiquemos livres da tortura de assistir a algo insosso e que não desperta nenhuma emoção dentro de nós.

E o grande problema está na falta de indivíduos interessantes. Para começar, Alex é apático demais. Tem uns rompantes de moralidade e certa resistência, no começo do longa, a praticar o assalto que levará o trio à situação horrifica nuclear para o desenvolvimento da narrativa, mas fora isso, é completamente dispensável. Seu suposto amor por Rocky sequer nos atiça. “E daí se ele gosta dela?”, pensamos nós, o público, achando que a moça é mulher demais para um rapaz tão panaca. E o que dizer de Money? Apenas uma engrenagem pequenina que ajuda a justificar a fluição das ações da maneira como elas decorrem. Mas é dispensável, tendo pouco peso dramático. É aquele sujeito que diz umas coisas engraçadinhas, mas que nos passa despercebido quase o tempo inteiro, devido a sua falta de substância. Serve mesmo é para entrar na faca do assassino, como servem aqueles adolescentes descolados, os ditos populares de colégio, que não cessam de morrer nas diversas versões de sexta-feira treze.

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Só Rocky salva.

Quem salva é Rocky. Sua construção não é livre de erros, e talvez seja até simplória, partindo de motivações óbvias, como a do desespero diante de uma vida sem jeito, para a qual a ilusão do dinheiro parece ser a única saída. No entanto, ela consegue superar essa premissa básica e se realiza como boa protagonista. Sensacional não, mas boa. Se os outros dois não servem para atiçar nossa compaixão, Rocky consegue fazer isso muito bem. Torcemos por ela, pois no fundo, seus motivos são justos: tirar a irmã pequena de um anti-lar e irem viver as duas felizes para sempre na tal Califórnia. Mas como todos sabem, nem tudo são flores…

O roubo do trio aparentemente tem tudo para ser um sucesso. Alex é filho do dono de uma empresa de segurança e tem chaves e senhas de um punhado de residências das gentes mais endinheiradas. Aliás, essa parece ser a sua única função real durante o filme: fazer correr a ação até o núcleo dramático, a casa de um misterioso ex-soldado que está fora de ativa desde que tomou um estilhaço de granada no meio dos olhos. O coitado é cego e se esconde num bairro esvaziado de gente. Perdeu a única filha em um acidente de carro, motivo pelo qual foi indenizado com a pequena fortuna ambicionada pelos infratores juvenis. É como um bicho do mato. Não quer saber de ninguém, e nem quer que saibam dele. Parece ser a vítima perfeita.

E é a partir do momento em que o homem nas trevas entra em cena, que o filme ganha em suspense e terror. As coisas correm errado e a vítima supostamente mansa, desperta de seu sono profundo  e vem ver o que está acontecendo na sua casa. E é aí que conhecemos o monstro. Um homem que mais parece fera, todo movimentos predatórios de quem age por instinto, tendo perdido a sua humanidade com os traumas do passado. Suas feridas são bem justificadas e não parecem absurdas no universo ali encenado, e não nos é difícil aceitá-lo tal como é, e temê-lo como o perigo que logo prova ser.

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Parece tão assustado, e inofensivo e, e…

A metáfora que pode ser abstraída da condição animal/homem do cego é interessante. Vive isolado em um bairro abandonado e enclausurado em sua casa. Guarda seus segredos por trás de portas fechadas com cadeados de aço. Tem um cachorro feroz e que parece significar a sua fúria represada e que há de estraçalhar quem se colocar em seu caminho. Podemos até imaginar a casa como o seu interior psíquico, onde os demônios estão ocultos nas sombras, mas podem se revelar ao se atravessar uma porta, ao ousar espiar o cômodo secreto. Daí o título (uma tradução brasileira, devo dizer, mas que casa bem com a proposta do filme) ganha em significado: O homem nas trevas não o é apenas por causa da cegueira, mas pela prisão interior na qual se meteu por culpa de fatos não superados. Não se trata de um mero assassino, mas de um homem complexo e que nos assombra a todo instante, a cada atitude visceral que toma, a cada flash que temos de seus interiores psíquicos.

É humano, mas também monstro, pois não somos capazes de explicá-lo. Adiante, seus motivos são justificados e passamos a ter uma visão nova sobre ele, mas nunca como homem, pois não deixamos de temê-lo. Cada minuto na tela é motivo para nervosismo por parte do público, que observa os seus avanços com a respiração sufocada daquele que é caçado impiedosamente. Não à toa, o título original é Don’t Breathe, ou, em tradução literal, não respire, tamanha a pungência de tensão durante o desenrolar das ações. Como dito antes, Money e Alex podem ser superficiais e prejudicar em muito a qualidade dramática da peça, mas Rocky segura as pontas, e junto com o Cego, proporciona momentos angustiantes de caça entre cão e gato.

O longa descamba em temas de ambiguidade moral: sabemos dos atos pérfidos do homem cego, mas nada falaremos, ou ficaremos sem o dinheiro suado que roubamos em sua casa. A possibilidade de um acordo entre personagens e monstro faz com que o roteiro fuja de soluções clichês e se arrisque a uma reflexão mais profunda sobre as dubiedades que cercam a noção de caráter, muito para além das questões do certo e errado. Como disse antes, não fossem os erros na formação de personagens e as motivações banais, o filme teria sido uma ótima produção do gênero terror/suspense. No entanto, consegue ter lá sua qualidade e se destaca dentre as centenas de produções que preferem se pautar em sustos incapazes de sustentar medo e tensão, ao invés de se arriscarem a uma criação que venha a dialogar com as trevas dentro de nós, que vez por outra, ocultam o homem, a mulher. O humano.

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Vá lá, três cafezinhos com uma meia dose de Whisky em cada um, para o Homem nas Trevas! Ainda há de chegar o dia em que tomarei cinco cafezinhos repletos por uma autêntica peça de terror…