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O velho safado

O velho safado! Há quem o conheça das redes sociais, principalmente como autor de diversas frases compartilhadas entre amigos, aqueles excertos espirituosos tantas vezes também ligados à pessoa de Clarice Lispector, embora ela nunca tenha dito e nem escrito nenhum deles. Um velho que ficou conhecido por suas peripécias sexuais com mulheres das mais variadas faixas etárias e condições sociais, e até hoje ainda é visto como um grande sábio das putarias, um profundo conhecedor da alma feminina. O nome verdadeiro? Charles Bukowski, autor norte-americano de origem alemã, e infelizmente, morto desde a década de 90. Sim, uma perda irreparável!

Hoje farei algo um pouco diferente. Não falarei de um livro, mas do escritor em si. Pois vejo o pobre Bukowski como um injustiçado, e como ele não está mais aqui para se defender dos absurdos que tantos dizem por aí, nesse mundão afora… Eis que surge o seu protetor! Eu, Chapolin… Não, eu, Rafael, autor deste humilde texto e que não acha justo que um poeta deste quilate seja conhecido apenas por ter sido um velho safado, como se seu texto se resumisse a mera pornanchanchada e nada mais. Ora, não estamos tratando de um roteirista da indústria pornô brasileira! Claro, meus queridos leitores, que o sujeito em questão tinha lá suas preferências pelo sexo escrachado, mas o seu texto não era só o sexo escrachado. Havia mais do que seios desnudos e membros eretos em seus versos, algo como um sentido poético forte, e que por se esconder nas entrelinhas de uma vida a mil por hora, tantas vezes passa despercebido, desprezado por aqueles, que, me perdoem, se dizem admiradores de sua literatura.

Para começar, Bukowski revelou em uma de suas poucas entrevistas (não me lembro exatamente para qual veículo foi dada. Procurem no YouTube!) que os seus textos batiam muito na tecla sexo não por opção estética, mas por necessidade de sobrevivência. As revistas que pagavam mais eram as revistas de sacanagem, dentre elas, a Playboy, e como Bukowski nunca ficou rico escrevendo, e creio, morreu sem saber o que é ter uma casa na praia ou um carro esportivo, ele tinha de dar um jeito de levantar uma grana para pagar suas contas. E quem é mais íntimo da sua literatura, sabe que a maioria de seus contos retratam uma realidade difícil, em que o narrador quase sempre está saindo de um emprego ruim para outro emprego ruim, vivendo em barracos, e mais bebendo do que comendo para suportar todo aquele inferno.

Sim, Bukowski tornou-se um mito, mas quando vivo era como eu e você, cidadão de bem, cujo salário termina antes da metade do mês e que quase enlouquece pensando em alguma maneira de pagar suas contas. E Bukowski percebeu, em sua necessidade de sobrevivência, que se seus contos tivessem um conteúdo erótico, putaria da boa, ele conseguiria levantar alguma grana e tornar a sua situação mais tolerável. Ao menos daria conta de comprar a cerveja e garantir dias melhores, menos desesperados. E era isso o que ele fazia, o que não quer dizer, que ele também não produzia um tipo de literatura mais refinada. Ou que não tivesse nenhuma qualidade estética em seus textos.

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Bukowski! Um sujeito bacana e… É, essa foto não ajuda muito.

Ele era um sujeito dado a experimentar. Seus contos mostram isso. São escritos numa linguagem malandra e que foge ao pontuar convencional, e usa e abusa de um linguajar das ruas. Fugia ao tradicional e conseguia produzir narrativas originais. Alguns dizem que ele já era um Beatnik, antes mesmo de haver o movimento. Não num sentido de revolucionar a língua e os padrões de seu tempo a partir de sua obra, mas por negar os valores em voga, em uma espécie de anarquismo literário condizente com seu estilo, digamos, marginal de vida. Tanto que certos tipos de literatura hoje em dia, são taxadas com o selo Bukowskiano, por se aproximarem do discurso utilizado pelo velho safado, um discurso todo seu e que em sua época surgiu como uma novidade, algo para além do que estava padronizado, e que por esse mesmo motivo, chegou a ser desprezado em um primeiro e até segundo momentos pelos críticos, mas depois acolhido, embora isso não fizesse a alegria de Bukowski, que como se percebe em muitos de seus textos, não era lá muito chegado a ter intimidades com acadêmicos. Ele os detestava e deixava claro esse seu desprezo nos lindos poemas em que louvava a classe dos pedantes profissionais. Procurem por Um poema rude e entenderão o que digo.

Vocês devem estar se perguntando: “Peraí, mas como você sabe tanto assim do velho safado? Hein? Hein?! Quem garante que não está mentindo?”. Pessoal… Está tudo nos textos. Sua obra era marcadamente autobiográfica, de forma que ficção e realidade se misturavam num caldo bem grosso e impossível de se separar. Ele tinha até um alter ego, o Henry Chinasky. Perceberam a semelhança entre o nome do escritor e de seu alter ego? E muitas vezes, em suas próprias poesias, ele se colocava em primeira pessoa, como o sujeito que vivencia e que vivenciou as situações relatadas. Bukowski não fazia questão de esconder as características biográficas de sua obra. Ao contrário: Deixava claro que a sua literatura era fruto direto de sua vida, da qual, ao que parece, não se envergonhava, apesar dos pesares. Era daqueles sujeitos raros, capazes de rir da própria desgraça, gargalhar mesmo, como faz uma criança quando se depara com algo muito engraçado. Não é à toa que as suas narrativas, embora feitas de um sarcasmo que beira a acidez, volta e meia, também nos fazem rir.

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Poucos sabem ou souberam rir como esse aí.

Velho safado foi um apelido que pegou, mas como todo apelido, não resume o sujeito em toda a sua complexidade. Bukowski era mais do que — usando de um termo chulo — um comedor. Ele era um poeta. Contista. Romancista. Enfim, um indivíduo polivalente! Seus textos mais populares são os contos, mas convido você, leitor, a dar uma lida nos poemas, e o desafio a encontrar neles apenas o velho safado, tal como Bukowski é injustamente reduzido nas redes. Leia o livro (publicado postumamente e editado no Brasil pela LP&M Editora) As pessoas parecem flores finalmente e se prepare para mudar de opinião, para conhecer um Bukowski não só safado, mais sensível e com uma visão de mundo trágica, triste mesmo, mas também bonita… E o escritor de artigos nada acadêmicos, mas cheios de um sarcasmo apropriado a seres inteligentes e bem humorados? Esse você encontra no livro Pedaços de um caderno manchado de vinho, e em tantos outros, mas tantos…

O recado aqui é: conheça melhor a obra de um escritor, antes de taxá-lo. Bukowski tinha a sua faceta velho safado, e graças a ela ganhou tanta popularidade, a maior parte, não em vida, claro, mas após a morte. Mas ele não é apenas o velho safado! Há muito mais e garanto que não irão se arrepender de conhecer, de se aprofundar na poética desse sujeito, que era sim, um escritor de mão cheia, fossem de seios ou de um repertório cultural de impôr respeito a qualquer doutor de letras.

Cinco cafezinhos para o senhor Bukowski, por tudo de bom que ele já escreveu e poderia ter escrito se tivesse vivido um poquinho mais, mas só um poquinho…

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Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.