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Os Suspeitos (The Prisioners – Denis Villeneuve – 2013)

Reinterando a eterna reclamação de blogueiro aspirante a cinefilia: tem muito tempo que eu não escrevo sobre um filme. Mas isso é papo para o Café Mambembe, vamos ao filme da vez:

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Subúrbio de Boston. Lugar afastado do caos e da correria de mega centros, lugar de famílias que ainda andam a pé de suas casas para as casas dos amigos vizinhos. Keller e Grace Dover (Respectivamente Hugh Jackman e Maria Bello) são casados e possuem dois filhos, o mais velho Ralph (Dylan Minnette) e a caçula Anna (Erin Gerasimovich). A família Dover é além de vizinha, companheira da família Birch, que constitui no casal Franklin e Nancy (Terrence Howard e Viola Davis) que também tem dois filhos, a mais velha Eliza (Zoe Borde) e a mais nova, Joy (Kyla Drew Simmons). Os Dover e os Birch, celebram o feriado de ação de graças, quando o desaparecimento das filhas menores abala de vez a bucolidade de ambas famílias.

Na medida que a história se desenvolve, somos apresentados a mais dois personagens chave. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal) e o suspeito do sequestro das crianças, Alex Jones (Paul Dano). Loki, um detetive com um certo prestigio que é capaz de se conseguir na então pacata cidade, enfrenta um caso que desafia a sua moral, o fazendo virar um verdadeiro caçador, se aprofundando cada vez mais no caso. Alex por sua vez, é um garoto com distúrbios mentais, que mora com sua tia Holly Jones (Melissa Leo), que cuida do garoto problemático desde a morte dos pais e do sumiço de seu Marido.

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O mais impressionante do filme em si, é o fato de Denis Villeneuve (diretor) e Aaron Guzikowski (roteirista) não terem um outro trabalho juntos e serem conhecidos por trabalhos “pequenos” são um alcance grande de publico (o que eu não preciso dizer que não é uma premissa para o filme ser ou não bom) e fazerem um trabalho que se encaixou nos mais perfeitos detalhes, dos mais fechados até mesmo as pontas soltas deixadas do decorrer do filme, que de nada prejudica a performance ou o resultado final, muito pelo contrário.

Logo de introdução, temos uma cena que começa a descrever, não somente a relação que Keller tem com sua família, mas muito do que possui em características duras. É uma cena muito interessante e construída com o objetivo de mostrar ao mesmo tempo a frieza de Keller, bem como sua desconfiança no semelhante e sua fé em Deus. Pai e Filho estão em uma floresta, caçando um veado. O menino segura o rifle apontada para a caça enquanto o pai quase declama o “Pai Nosso”. Logo em seguida, dentro do carro voltando para a casa, Keller pai inicia um discurso para o filho, sobre como ele tem que estar sempre preparado para o pior. Sempre com reservas para, no caso de alguma emergência, não ter que disputar a tapas suprimentos com outras pessoas que estariam desesperados e, que em casos de necessidades, e situações extremas, o ser humano se transforma, amigos viram inimigos, pessoas pacatas viram pessoas revoltosas e o caos impera.

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O roteiro e a construção de cena já se mostram que serão bem colocadas já nos primeiros minutos, mas não tão aparente e óbvia como se faz crer. Com as famílias reunidas e em meio a risadas e brincadeiras, temos um take do lado de fora, onde um trailer estaciona próximo onde eles estão. A família não pode, vê-lo, o motorista não pode vê-los, nós não podemos vê-lo.

Mas ainda assim, já sabemos que é naquele trailer que o filme realmente começa. As duas crianças menores se afastam dos seus familiares, despistando seus irmãos mais velhos. Depois de muito tempo, os pais se dão por falta das crianças, e no meio da chuva (que é um personagem marcante), eles se vêm desolados pelo desaparecimento sem vestígio algum de suas filhas.

É um número considerável de personagens, mas poucos com baixa relevância. Cada um com uma característica ímpar, no contexto geral. Nada sobrehumano, nada trasncendente, nada que o exagero da ficção permite. É uma história sendo contada por ações factiveis, o que é o fator que leva o filme ser tão assistivel.

Keller Dover: Já vi muitos filmes onde Jackman atua como o herói. Ícone de força, bravura. Um homem grande, belo, sem medo da morte e que come todo mundo. Não é atoa que é e vai continuar sendo taxado como o eterno Wolverine. Mas aqui nesse filme está claro, que mesmo ainda preso a todos esses estereótipos, essa atuação não tem nada ver com a jornada crescente do herói. Bem pelo contrário. Keller é um pai desesperado que vê não somente a sua fé sendo testada mas como a sua família, a segurança, tudo que ele representava para eles, desmoronarem juntos. Como mencionei acima, nas primeiras cenas, a construção da solidez do personagem é feita com alguns diálogos, e algumas demonstrações de poder, pequenas, mas mostrando o sistema patriarcal ortodoxo onde ele encabeça.

E é ai, nessa introdução ao personagem, mas a reviravolta que ele dá no decorrer da trama que Jackman está sendo ovacionado pela sua atuação, totalmente merecida. A revolta, o medo, o ódio, a decadência, todas interpretadas com maestria aos olhos do estereotipado ator que ficou tatuado na mente de muitas pessoas como o “imortal Wolverine” (foi uma piada, tentem entender, porfa!), uma atuação digníssima, que eu não via desde “The Fontain”.

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Aaron Guzikowski acerta em cheio em um roteiro labiríntico, e não não é apenas suma referência a esse símbolo pertencente a diegética do filme. Ele é realmente muito rico em detalhes, que foi apoiado magistralmente pela fotografia pesada e melancólica de Roger Deakins e pela direção de Denis Villeneuve. Sem falar na trilha sufocante de Jóhann Jóhannsson.

Mas ainda com esse tanto de ajuda, o roteiro é um tanto quando procrastinador, e arrasta por quase duas horas e meia de projeção. Mas uma procrastinação que não faz decair em nada o que está passando, e em momento algum perde em si.

Realmente um excelente filme de suspense, mas eu me resquardo em afirmar, como muita gente já está afirmando, que é o melhor filme do gênero lançado em 2013, ainda temos 75 dias faltando pro ano acabar e tem filme a beça ainda pra vir, então é melhor não ser tão pretensioso.

Logo nas cenas introdutórias, nos passam a impressão de serem amigos a muito tempo. Até que o sequestro de suas filhas acabam com a paz e tranquilidade das famílias, mostrando o desespero e o terror de pais que estão de mãos atadas e não podem fazer nada que a lei permita para que o suspeito do sequestro (Alex Jones, interpretado por Paul Dano), admita o crime e diga onde as crianças estão. Ou sequer se estão vivas. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal ) é a representação da força policial, que também de mãos atadas pela lei, não pode fazer nada sem se complicar, mas em certa altura, toma o caso como pessoal, levando o filme a uma conclusão realmente inesperada.

O filme me agradou muito, como mencionado, mesmo não fugindo de certos parâmetros clichês que envolvem uma história, cujo suspense é a narrativa trabalhada. Sabendo disso, o filme não perde em nada.