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Resenha: Metallica – Hardwired…to Self-Destruct

Existem bandas que uma simples menção ao nome já é motivo de alvoroço, discussões acaloradas e reações das mais diversas. O Metallica é uma dessas bandas, sendo impossível passar despercebida. Sendo uma banda com um tempo considerável de estrada e algumas polêmicas ao longo desses anos, o anúncio de um novo álbum causou uma grande movimentação entre os fãs e apreciadores do conjunto.

“Hardwired…to Self-Destruct” é o mais novo lançamento do grupo, sendo o décimo disco de estúdio na discografia da banda. Há oito anos sem lançar nenhum material inédito, é lógico que o simples anúncio de um novo disco foi o suficiente para deixar qualquer fã de cabelo em pé. O que mais chama a atenção é que a banda que outrora foi contra o compartilhamento virtual de músicas, hoje em dia adota uma postura completamente diferente daquela do início do milênio. No mesmo dia de lançamento do CD, foram liberados no youtube videoclipes de TODAS as músicas do álbum. A campanha de marketing foi algo realmente fora do comum, complementada pelo fato do álbum ser duplo.

De maneira geral, “Hardwired…to Self Destruct” é um bom álbum, com uma produção muito boa,com todos os instrumentos audíveis sem ficar muito alto ou saturado, melhor que a de seu antecessor, “Death Magnetic”. Outro detalhe que chama a atenção é que a autoria de todas as músicas foram creditadas a James Hetfield e Lars Ulrich, e coincidentemente (ou não) a participação de Kirk Hammett ficou um pouco aquém do esperado, sem solos marcantes. Kirk Hammett é o tipo de guitarrista que não mostra muita inovação técnica, fazendo muito uso de wah-wah (a característica mais marcante do guitarrista), mas seu estilo é totalmente inconfundível, e com ou sem inspiração se encaixa bem nas músicas da banda.

“Hardwired”, a música, abre o primeiro CD e foi a primeira música a ser liberada no youtube. Trata-se de uma música rápida e pesada, mostrando que a banda ainda sabe ser rápida e agressiva. A única ressalva fica para o solo de guitarra, que fica a impressão de que Kirk simplesmente desistiu de terminar de tocar. Fora isso é uma boa canção, muito bem escolhida para ser a primeira do CD. Em seguida temos “Atlas, Rise”, que é uma música muito boa, com um instrumental muito bem trabalhado. Destaque para as guitarras no refrão, que não só são melódicas como tem um fraseado totalmente baseado em “Hallowed be thy name” do Iron Maiden, algo impossível de não perceber. Logo em seguida vem “Now that we’re dead” dando sequência. Essa sim, uma música muito boa e fácil de se gostar. Peso e agressividade na medida certa, bem no estilo que uma banda como o Metallica pode nos proporcionar. “Moth into flame” vem na sequência, sendo outra bela composição, mantendo o peso e agressividade, sendo acompanhada por um refrão bem marcante. Vale a pena destacar também, que em determinada parte da música, Lars Ulrich mostra que ainda sabe usar o pedal duplo, muito bem colocado. Depois temos “Dream no more”. Essa música parece algo saído da fase “Load/Reload” só que com esteróides, de tão pesada. O vocal de James Hetfield, cheio de maneirismos,  ajuda a lembrar essa fase. O que chama a atenção nessa música é a letra, que mais uma vez faz referência ao mito de Cthulhu, referência essa que já foi feita antes, nos primórdios da banda. Para fechar o primeiro CD, temos “Halo on fire”. Essa pode ser considerada a balada do álbum, pois segue aquele esquema de começar lenta e melódica para depois ficar pesada. Vale a pena aqui ressaltar a interpretação de James Hetfield, muito inspirado.

Vamos então para o segundo CD, que começa com “Confusion”, que é outra canção muito boa, com bons riffs. A escolha certa para abrir o CD. “ManUNkind”, que vem na sequência, possui uma introdução que lembra muito o Iron Maiden na fase Blaze Bayley. De forma geral é uma canção pesada, mas com uma pegada mais puxada para o blues, lembrando de novo a fase “Load/Reload” com esteróides. Logo depois temos “Here comes revenge”, uma música arrastada nos versos e rápida no refrão. “Am I Savage” é uma música que apesar de ter um título legal, soa um pouco estranha. Com muitos riffs e muitos ideias em uma única canção, se faz necessário ouvir várias vezes para poder se tirar uma conclusão. A próxima música se chama “Murder One” e é uma homenagem ao falecido Lemmy. Se percebe isso tanto pela letra (que é recheada de referências ao eterno líder do Motorhead) quanto pelo videoclipe. Não chega a ser uma música marcante, mas a homenagem foi totalmente válida. Para encerrar o CD temos “Spit out the bone”. Se essa não for a melhor, com certeza é uma das melhores canções do novo álbum do Metallica. Rápida, pesada, agressiva, possui todos os pré requisitos para um verdadeiro clássico de uma banda de Thrash Metal.

A capa do disco também merece ser comentada. Ver o clássico logotipo da banda (com o M e o A estilizados) já dá um grande alívio para qualquer fã da banda, pois isso remete à fase de ouro do grupo. A capa é simples, porém sugestiva. Uma cabeça com várias expressões de raiva, uma sobreposta a outra (aparentemente são os próprios membros da banda fazendo essas caras) e o próprio logotipo meio distorcido, dão a impressão que a imagem da capa estivesse sofrendo algum tipo de interferência, e que essa interferência vai resultar em algo no mínimo destrutivo.

Quanto às performances individuais, James Hetfield esbanja agressividade quando a música pede, e nas (poucas) partes calmas e lentas, ele se mostra bem seguro do que faz, além de se mostrar um ótimo guitarrista. Cantar e tocar guitarra do jeito que ele faz é para poucos. Para esse frontman cabem muitos elogios. Lars Ulrich mostra que quando quer sabe mostrar serviço. Como já dito acima, a participação de Kirk Hammett veio sem solos marcantes, embora eles ainda estejam lá. O desperdício mesmo fica por conta de Robert Trujillo. Um baixista tão técnico e competente, mas que ficou totalmente apagado. Ele é o tipo de instrumentista que toca para a música, sem se preocupar em aparecer mais que os outros. Mas há situações que essa postura não é boa. Se ele tivesse (mais) espaço nas composições, certamente esse álbum seria mais rico musicalmente.

 O Metallica é o tipo de banda que já tem um currículo no mínimo invejável, com vários clássicos ao longo da carreira. Em consequência disso eles têm total liberdade para escrever o que querem e quando querem. Esse é um dos motivos pelo qual se esperou oito anos para que fosse lançado um novo material. Os elogios para esse disco se devem ao fato de que eles sabem compor músicas pesadas, agressivas e técnicas, dentro de sua proposta. Com algumas ressalvas aqui e ali, no geral o que ouvimos é uma banda que busca se manter atual, sempre absorvendo diversas influências, sem tentar se tornar um clone de si mesma.

Depois de toda a expectativa criada em torno desse lançamento, dá para tomar quatro cafezinhos tranquilamente.

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Diogo Muniz

Amante do Rock e Heavy Metal, intensamente moderado ou moderadamente intenso, guitarrista nas horas vagas e torcedor do E.C.Mamoré.