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Rosa choque e a função do teatro

O teatro tem uma função? E se tem, qual é? Seria como uma caixa de fósforos? Sabemos para que serve a tal caixa de fósforos. Ela conserva e acende os palitos, a depender de onde os riscamos. É um objeto com função bem definida em nossa sociedade, e tem lá sua utilidade, apesar dos fogões elétricos e de todas as outras quinquilharias que a modernidade inventou para nos tornar ainda mais gordos e preguiçosos. Mas e o tal do teatro? Há quem diga que não serve para nada, não efetivamente. Talvez como distração, e só. Sabe, uma opção para evitar o tédio que nos assombra dia após dia, numa perseguição implacável que chamamos de… Rotina. Ou desgraça. A depender do sujeito, as alcunhas mudam.

Mas o teatro é só isso? Puro entretenimento? Pergunta boa, mas difícil de responder! Faz lembrar de uma peça que assisti uns tempos atrás. Famosa! Encenada a partir do texto “Novas diretrizes em tempos de paz”. Lá, a trama gira em torno de um judeu que vem se refugiar no Brasil, e que outrora ator, não sabe se ainda há espaço para as artes cênicas num mundo dividido pelo horror das guerras. Quem há de se emocionar com um monólogo ou um drama shakesperiano, quando se deve matar para não morrer? Quando a vida humana é quase obsoleta… Transponho, com toda a liberdade poética que esse singelo artigo a de me conceder, a questão que agoniava Clausewitz para essa época nossa de tantas certezas prontas e fundamentadas, quando a arte não parece mais arte, mas apenas oportunidade de panfletar, uma anti-reflexão e anti-emoção levada aos extremos: Qual é a função da arte num mundo onde todos estão tão certos do que acreditam?

Abro parênteses nas considerações anteriores para narrar acontecimentos de semanas atrás. Estava eu em casa e atormentado pelo tédio nosso de cada dia nos daí hoje, quando assobia o Whatsapp com a seguinte mensagem: “Rafael, vai haver uma peça no centrão de Beozônte, e seria uma oportunidade bacana de nos reencontrarmos e depois assentarmos num bar para beber e beber e falar umas tantas bobagens. O que acha?”. Quem perguntava era um amigo meu de codinome Dudu, que conheci em desventuras minhas pelo palco, graças a uma recente inspiração de ser ator, não profissional, longe disso, mas um anti-ator, mais sujeito curioso pelo novo do que um futuro Wagner Moura ou o caralho a quatro. E como desde que comecei minhas desventuras artísticas em palcos, passei a me interessar mais pelo teatro, pensei comigo: “Ora, não custa nada…”. E dei meu aceite. “Sim, claro que vamos, ora essa, para beber muitas cervejas depois, muitas e…”.

Sim, o objetivo principal era tomar cervejas.  A peça não me importava tanto. Para começar, era de um grupo sobre o qual eu nunca havia ouvido falar antes. Um tal de teatro “Espanca”. Nome sugestivo, sim, e logo pensei que me seriam apresentadas em cena questões clichês, normalmente muito frequentes nos ambientes por onde circulam pretensos revolucionários políticos que sequer tem barbas na cara, e quando as têm, ainda conservam por debaixo dos pêlos espetados para mil e uma direções, uma pele quase que intacta de bebê. Esses muito indignados que vemos por aí, a lotar faculdades e tantos outros meios da classe “intelectual”, e que dizem “Coxinhas não passarão!”, ou “O capitalismo há de destruir a humanidade”, e tantas outras frases prontas e de fazer doer a cabeça de qualquer um que tenha um pouco de amor ao hoje praticamente extinto “senso crítico”. Sim, sim, me chamem de preconceituoso, ou fascista, ou qualquer outra alcunha clicherista e tão embolorada quanto os ossos do primeiro homem a governar essas nossas terras, mas não nego que tenha pensado isso e que tenha ansiado mais pelas tais cervejas do que pela tal peça a qual havia me mostrado tão entusiasmado para assistir, mas só por causa das cervejas, ah, aquelas abençoadas…

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Fachada por demais intimista, cenário típico para sujeitos crentes de terem as respostas certas, discutirem o que há de ser melhor para o mundo. Quiçá, o universo!

Pois bem, lá fomos nós até o tal teatro Espanca, e enquanto esperávamos na porta, eu ia imaginando os muitos absurdos que ouviria lá dentro, sem falar nas milhares de frases prontas que seriam atiradas contra meus ouvidos desprotegidos, frases essas que nunca mudaram o mundo, e não hão de mudar, ah, disso tenho certeza. E como! E enquanto debatia acirradamente com meu amigo as questões nacionais e me sentia um salvador da pátria, como a de se sentir todo orador apaixonado e cheio de razões diante de um ou mais amigos chegados, eis que chega a hora de entrarmos no recinto, e lá vinha a preguiça me possuindo inteiro, e uma vontade de que o relógio desse um saltos e eu fosse logo tomar as tais cervejas, só fosse embora e pronto! As tais cervejas…

E logo tenho a minha primeira surpresa da noite, das mais inesperadas: duas pessoas nuas no ambiente! Um homem e uma mulher mostravam suas vergonhas e se mantinham imóveis em suas cadeiras, como a esperar por um sinal para se atracarem ali, bem na frente de nós. E pensei comigo: “Ora, ora, não levem tão a sério essa peça, não precisam fazer uma performance tão convincente diante desses olhos meus tão envergonhados quanto os de uma virgem, ah, não, que sou frágil demais, e como sou…”, pensava, enquanto acreditava que logo começariam ali algo muito comum aos cursos de humanas: a apresentação de uma obra artística que só os próprios criadores e outros envolvidos no projeto são capazes de compreender, e não por ser obra feita de filosofia do mais alto cacife e compreendida por uns poucos seres humanos afortunados, mas por ser talhada numa linguagem acessível só a um grupinho feliz, desses que costumam pensar: “que se dane o resto da sociedade estúpida demais para entender inteligência nossa, não precisamos deles, não, só de divertir nossos amiguinhos mais chegados e amados e repetir milhões de vezes os discursos que correm a nossa volta; única opinião possível de mundo e que apenas nós entendemos, mas que há de ser a verdade absoluta sobra tudo. Tem de ser!”.

Ah, passavam todas essas coisas pela minha cabeça, e eu ali, acuado por aquela cena mais do que inesperada, quando… Vem a segunda surpresa da noite! Todos do público tomam assentos, homens de um lado e mulheres de outro, cada sexo devidamente instalado por detrás ou nas cadeiras ao lado do ator que lhes representava. E então eles se levantam, e ao invés de se agarrarem e começarem algo que meus olhos virgens se escandalizariam de ver, eles simplesmente começam a proferir o texto que decoraram não se sabe em quanto tempo de árduo esforço artístico, e o tal texto não falava de questões de grande complexidade e compreensíveis apenas a uma afortunada casta destinada a um refinado conhecimento, mas algo inerente a todos, e que fazia sentido ali, ah, fazia sim… Menino brinca com bola. Menina com boneca. E se acontece o inverso? E se o menino não gosta de futebol? E se a menina não serve para ser mãe e já renega todas as bonecas que lhe dão de presente? E se, e se… E lá estavam os atores nus! Sem vestimentas certas. Sem gêneros sociais definidos.

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Boas interpretações, montagens maravilhosas de cena, ÓTIMOS atores! Tudo o que eu não esperava. É, a gente vez por outra, quebra a cara.

Gêneros sociais! Prestem atenção ao termo. Não falo sobre sexo. Sobre o que se tem entre as pernas. Entendemos bem que homem nasce homem e mulher nasce mulher. Fato. Até um idiota compreende essa lei irrevogável do universo. Mas, no que tange às relações sociais? A mulher tem de ser sempre aquela que se veste de determinada forma ou age de maneira A ou B? E o homem? Desnudos, os atores atiravam essas questões para a platéia. E ficava a pergunta: Por que ter de agir e ser como A ou B? Menino chutando bola, e menina fingindo cozinhar galinha no seu fogãozinho rosa? Por que?

E a nudez não era atrativo. Corpos nus ali, mas tinham algum objetivo, e nem escandalizavam mais meus olhos virgens. As cervejas jaziam esquecidas, e eu inteiro absorto pelas ações em cena. E os atores vestiam roupas e iam para o próximo núcleo da ação. Terceira surpresa da noite: cena construída em tijolinhos de fina ironia. Um homem é estuprado na rua e vai à delegacia dar queixa. A delegada pergunta: O que um rapaz como você fazia tão tarde na rua? Tava é pedindo pra ser estuprado… Logo aviso: Qualquer semelhança com a realidade, é só mera coincidência.

Corriam cenas e mais cenas, e eram todas muito bem construídas e cheias de belos simbolismos e alegorias, e eu ficando ali um tanto quanto perplexo diante de todas as artimanhas narrativas dos honrados atores, e já sem ar e obrigado a pensar em tantas coisas num curto espaço de tempo, quando… Termina a peça e saio num andar vagaroso, ainda tendo em mente um dos atos finais da peça: a queima de uma peça íntima masculina e de uma feminina, como que num ritual de alguma seita milenar, e o brado mudo e que ecoa para além, cada vez mais além… Sou o que sou! O que tem a ver o cu com as cuecas que lhe vestem? Questionamento meu e vulgar, logo digo, não cismem de imputar a autoria dessa frase ao pobre grupo de teatro, não, é minha mesmo, mas seja vulgar ou não o pensamento, o fato é que sai de lá cambaleando e com ideias semelhantes indo e voltando em minha cabeça, e não digo mudado, mas obrigado a pensar um bocado a respeito de coisas quase sempre ignoradas. Se ainda tomei as cervejas? Claro, claro, mas digo que mais de metade da discussão travada com meu amigo foi sobre a tal peça.

E aqui retomo a pergunta: Para que serve o teatro? Ele tem alguma utilidade? Ora, amigos, não sei se tem para todos, mas a mim proporcionou uma noite de pensamentos variados e fugidios da praga do senso comum, e assunto para dar e vender numa mesa de bar, motivo bom demais para matar saudades do amigo e fugir um pouco desse tédio nosso de cada dia, e que nos mata de tão igual. Ah, e como mata!

Obs: Rosa Choque ainda está em cartaz em BH. Não sei bem os dias em que ocorrem as sessões, mas o tio google existe é para isso, não é? A entrada é baratissima: cinco reles reais. Vale a pena demais, desde que teus olhos não sejam virgens e sensíveis a dois corpos nus esperando para começar um espetáculo.

  • Nayara Ariel

    Muito bom texto Rafael. (Estou falando por que achei mesmo, não pretendo ser a “tia”). Me deu até vontade de assistir a peça. rs
    O teatro tem um valor inestimável pra mim, pena que ainda é pouco acessível, pouco divulgado e quase ninguém vai perder um filme para assistir a uma peça. Infelizmente, o mundo ensinou-lhes a não gostar de teatro. Os meninos (e muitos adultos) do mundo da tv não gostam de teatro, sem nem ter provado.

    • Voz Rubra

      Vlw Nay! Sim, as pessoas cometem um pecado ao menosprezar uma arte como essa. E nem podem reclamar de falta de acessibilidade, porque tem peça que você paga 20, quando não menos (como no caso dessa peça do Espanca, em que o valor cobrado foi de míseros cinco reais), e fica até mais barato do que cinema, que, vamo combinar, tá um absurdo nos dias que correm. Pena de quem nunca experimentou a magia do teatro… Não sabem o que perdem. Agora, a questão da pouca divulgação, isso é mesmo terrível. As rádios até falam bastante, mas só de peças de comédias ou camaradas, mas de qualquer forma, é muito pouco diante do que de fato acontece por aí.