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Star Trek: Sem fronteiras (2016)

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Antes de começar com minhas observações pseudo-críticas, me sinto na obrigação de avisar que não sou um fã de Star Trek e tampouco assisti a algum episódio da famosa série homônima da década de 60 e que deu origem à sua mitologia. Aqueles personagens me são todos estranhos, apenas Spock é um rosto amigável no meio de um monte de desconhecidos, talvez, por ser forte a sua presença nas vertentes pop de cultura. Mas antes que me trucidem pela minha ignorância e pretensão em falar de um filme de cujo universo sou um alienado, me defendo com o argumento de que isso tem lá seus pontos positivos. Pensem bem: Sendo a mim quase desconhecidos os elementos de Star Trek, há a oportunidade rara de se fazer uma análise neutra do produto, sem me apegar a memórias afetivas, que, normalmente, os mais aficcionados carregam e que os tornam escravos das fatídicas comparações. “Os filmes anteriores eram melhores! E também acho que esse filme não honrou o espírito original do seriado e blá, blá, blá, blá, bláaaaaaa…”.

Não. Prefiro fazer diferente. Não procurarei ir atrás dos antigos Star Treks, sejam eles filmes ou os seriados, mas me concentrarei nesse. E devo dizer: Não há perda nenhuma de sentido em termos de história, mesmo que o telespectador seja como eu, um marinheiro de primeira viagem. Conseguimos entender a coisa sem qualquer dificuldade. A narrativa se desdobra de uma maneira quase didática. Capitão Kirk está lá, entediadíssimo com o seu cotidiano e começa a pensar em largar o leme e passá-lo para o seu coleguinha, o tal do senhor Spock. E daí a trama prossegue tranquila como um carrinho passeando por estradas retas de sumir no horizonte. E isso é bom? Ora, para quem não quer fazer esforço de pôr a cachola para trabalhar e quer mais é relaxar durante uma sessão de cinema, eis aí uma ótimo pedida. Puro entretenimento de duas horas sem grandes surpresas ou reviravoltas, tampouco ensinamento profundo para passar adiante.

Não digo que o fato do filme ser simplório em conteúdo seja uma coisa ruim. Claro que não. Creio que o seu objetivo seja mesmo esse. Nada de épico, apenas a narração de uma história sobre viajantes espaciais, e algumas reviravoltas aqui, alguma ação ali… O clássico longa de aventura, mais ou menos no estilo de um Indiana Jones, mudando na temática, mas não no jeito de se fazer. Temos lá a receita: todos começam muito felizes e realizados dentro de uma nave, em um ambiente onde reina a paz, e de uma hora para a outra começa a confusão, e os personagens todos têm de mostrar coragem e força para enfrentar obstáculos e vilões e etc e tal. Como eu disse, é bacana para quem não quer compromisso com algo sério. Além de ser bem fiel ao original na coisa de não complicar demais e apenas entreter, como faziam os episódios do antigo seriado, com aquela cara de toddy e bolo e televisão ligada lá pelas cinco da tarde.

E digo que ao contrário de muitos filmes de entretenimento que vemos por aí (considerem uma indireta aos heróis da Marvel e companhia), os roteiristas conseguiram nos entregar uma narração ao menos decente. Nenhum absurdo que nos faça apontar o dedo para a tela indignados e exclamar: Por acaso vocês acham que somos idiotas? HEIN?! HEIIIIIIN?! A realidade fantástica onde estão inseridos os personagens ajuda bastante nesse quesito por ser infinita em possibilidades. Os acontecimentos se passam num universo onde há teletransportadores, carros voadores, naves mais velozes que a luz e planetas interligados mesmo com as diferenças de raças entre alienígenas e suas discrepantes culturas. E todos esses elementos malucos funcionam muito bem. Não ficamos nos perguntando se isso ou aquilo tem sentido. É apenas natural ali. Se encaixa como peças formando um quebra-cabeça inteiro.

Imagens de alto nível. Afinal, isso é ou não é cinema?
Imagens de alto nível. Afinal, isso é ou não é cinema?

E é aí que entro num outro detalhe importante: O filme é bonito! E muito. De encher os olhos. As animações são finas e nos transportam pra valer para o outro lado da tela e ficamos todos imaginando aquele futuro ali e todas aquelas máquinas quase divinas fazendo parte do nosso cotidiano. E o que falar das vistas panorâmicas dos planetas? Principalmente da colonia onde está a sede dos mocinhos, que é por si só um show de cenário, com prédios se equilibrando em ângulos impossíveis e todo aquele metal harmonizando com o verde e tudo o mais. É bonito de se olhar e esse é o ponto forte do filme: imagens. Tanto das paisagens como das lutas também, que são um show de efeitos especiais bem utilizados e que recuperam o que há de melhor em matéria de batalhas inter-espaciais, com canhões lasers e muitas, mas muitas explosões. E as cenas de ação não destoam como acontece num Batman x Superman, aquele desastre de excessos e megalomania, aquele querer ser épico a todo minuto e não ser nem por meio… Peço desculpas sobre essa outra alfinetada, mas ultimamente tem sido difícil engolir essas novelinhas bobas de heróis…

E aproveitando a deixa do paragrafo anterior, vamos falar do pecado capital dessa obra. Eles, os diretores e roteiristas, tem um mundo fantástico nas mãos, quase infinito em possibilidades, mas preferem fazer o básico. Iremos pôr um vilão aqui, aquele bem clichê mesmo, que se sente enganado pelo ideal no qual acreditava e por isso se tornou “mal”; um carinha egoísta que só quer vingança e mais nada. E poremos do outro lado o cavaleiro branco, o capitão Kirk, protetor dos valores de sua irmandade, cujo único dilema será sair ou não da equipe, e ele terá uns momentos de tristeza  por causa da já distante morte do pai, e serão todos eles bem banais. E amores? Colocaremos também! Spock num “vai não vai” com Uhura, conflito típico de rede globo de televisão às nove da noite. Nada de novo. Aqui o problema é a falta de complexidade “humana”, seja pelo lado dos mocinhos ou dos malvados. Falta ambiguidade numa aventura em que a palavra de ordem é o prazer de desnudar o desconhecido, olhar bem na sua cara e dizer: Ah, agora quem manda aqui sou eu!

Olhe só como sou assustador e mal, mas tão mal...
Olhe só como sou assustador e mal, mas tão mal…

Mas apesar dos pesares, os personagens não são ruins. Divertem. São caricaturas básicas do ser humano: Há lá o sujeito das piadas, o engraçadinho, aquele que serve como válvula de escape para as tensões; temos um sábio que também escorrega para o lado do humor, embora suas piadas nos façam pensar um pouquinho antes de relaxarmos e deixar o riso sair, inteligentes que são, em sua maioria. Sim, Star Trek segue a moda atual de usar comédia para aliviar o peso dramático. E digo que aqui fazem isso bem. Não forçam a barra. Não tem nada próximo da piada do pavê que seu tio faz em todo santo natal. Não, são mais como tiradinhas espirituosas e bem boladas, que querendo ou não, fazem até o sujeito mais cara fechada dar no minimo um risinho de canto de boca, pequeno, mas lá, denunciando o seu divertimento.

Velho Spock de guerra! Esse aí não morre tão cedo!!
Velho Spock de guerra! Esse aí não morre tão cedo!!

Mas volto a dizer que faltou alguma ambição. Digo isso porque o filme me remeteu bastante ao período de febre por descobrimento de nosso próprio mundo. Quando embarcações portuguesas rolavam pelos mares a procura de novas terras onde aportar, povos novos com os quais dialogar, ou explorar, a depender dos humores. Star Trek é o resgate daquela curiosidade pelo não visto. Como dizia Buzz Lightyear: Ao infinito e além!! E até há uns momentos de filosofia barata e que nos fazem pensar no futuro que está por vir com moradias na lua e em marte, e essa sede inesgotável do ser humano em mexer em tudo o que é vespeiro só pelo gosto de dizer que tudo é seu e não há limites para o que pode ser feito. Ao meu ver, há certo desperdício na questão da riqueza que o tema pode oferecer: a interação entre culturas completamente diferentes relegada a um segundo plano no filme, e os questionamentos existenciais que deveriam ser frutíferos naquela vastidão e que estão quase nulos ali. Mas talvez já seja uma opinião por demais íntima minha e que venha a indignar os que amam a franquia, e por não gostar de pisar em terreno mole demais, prefiro parar por aqui com essas observações.

Para finalizar, digo que Star Trek cumpre com o que promete. Se é para agradar aos fãs, faz isso bem e não desaponta. Estão lá os queridos personagens da década de 60 numa releitura mais contemporânea, mas sem perder a essência da qual foram feitos. Kirk, o herói pra toda hora; Spock e sua literalidade de pensamento que é mote para boas piadas; Leonard McCoy e sua sensibilidade beirando a morbidez, e tantos outros atravessando os abismos do tempo e indo desbancar em pleno século vinte e um e na melhor de suas formas. Não sou um entendido de Star Trek, mas digo que o filme vale a pena sim, fora um ou outro defeito, completamente suportável. Diverte, e creio que nesse caso, isso já basta para quem quer relembrar o passado ou passar seu tempo com algo no minimo bonito de se ver.

cafezes

Para Star Trek bebo três cafézinhos. E você leitor, quantos cafés você bebe por este filme?

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.