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Uma teoria nada séria sobre poesia

O que é poesia? Alguns acham que é um amontoado de versos, outros que seja a essência de um texto que diz mais do que deveria dizer. Mas há alguma definição mais tangível? Que resolva esse mistério sem que tenhamos de lançar mão de tantas formas de expressão que não explicam? Bom, creio que cada um tenha uma visão diversa do tema. Eu tenho a minha. Na verdade, herdei ela de Carlos Drummond de Andrade, mestre das letras, mineiro de nascimento, universal por ofício. Certa vez, andando a esmo pela faculdade de Letras de Belo Horizonte, adentrei num banheiro e vi lá, num cantinho, as palavras dele pixadas na pedra, e elas diziam:

“O que você sente ou pensa, isso ainda não é poesia.”

Não era bem assim o que estava escrito. Não sou lá bom transcritor. Também não tenho certeza de que seja mesmo da autoria dele. Mas o nome dele estava lá. Algo de poeta. De professor ensinando. Tanto que fiquei pensando a respeito disso. Ora essa, se não é o que eu penso, nem o que sinto, o que vem a ser a tal poesia? Algo para além de nós? Talvez contato com algo divino. E sendo assim, não há necessidade de academias e nem de acadêmicos insistindo em explicar aquilo que foge a razão. Sendo assim, poesia é ato de fé. Vem num rompante de iluminação e é apreciada como milagre, uma conversa com anjos ou deuses ou demônios, seja lá qual for sua crença, querido leitor, seja lá qual for…

Mas cismo de pensar demais. Queria explicar. Definir. Não bastava ser assim tão místico. Nós seres humanos temos mania de explicação. De conhecimento. Talvez tenha havido mesmo uma maça no paraíso e a coisa toda se estragou com uma mordida. E dalê vontade de querer saber demais! Mas é assim, seja por consequência de pecado ou não, mas é assim. E cismando continuei batutando aquelas palavras: “O que você sente ou pensa…”. E havia mesmo um sentido ali. Pois quem pensa demais não faz poesia. Talvez filosofe. Vá vislumbrar pedaços de verdade no caudal dos profundos mistérios. Ou fazer contas de matemática. Ou inventar ideologias, ou religiões, amarras e coisas que nos prendem, e creio que poesia não é isso. Não pode ser.

E a emoção por si só, sozinha, também não há de frutificar em versos. Emoções são humanas demais. A raiva de querer bater no outro, a tristeza de não querer ter ninguém por perto. O ardido de paixão que faz a gente pegar violão e cantas baladinhas e passar vergonha na frente de uma multidão. Emoção faz da gente burro. A gente não pensa mais, só age por impulso. Para quem quer fazer obra prima, algo pra ficar posterando anos e anos, não serve de matéria prima. É perigoso estragar a arte inteira. Já viu alguém cozinhar nervoso? É isso. Coloca os ingredientes todos inspirado por raiva, e quando vê, o feijão tá salgado demais e o arroz está aquela papa de jogar na parede e ficar lá.

Continuei pensando… Voltava àquele banheiro e tinha vontade de levar pra lá vela preta, uma Bíblia satânica, alguma coisa que me ajudasse a falar com o morto. Com o Drummond. “E aí, seu infeliz, tá na tua tumba quietinho, quietinho por toda uma eternidade e rindo da gente aqui em cima passando todos esses bocados, quebrando cabeça pra entender essas suas sacadas de gênio. Que quis dizer nesses versos aqui? Poesia não é o que se pensa. Nem o que se sente. Então é o quê, seu infeliz? O quê é? Vou ter de chamar um médium para te puxar pelas orelhas? Ora essa…”.

E cheguei numa conclusão. Minha e só minha. Não quer dizer que seja certa. Ou errada. É só o meu ponto de vista. Talvez ajude quem não tenha opinião formada. Quem olha pra poesia como se visse um pedaço de Deus ali, costurado numa página em branco. Que acredita em magia. E talvez essa gente nem precise de explicação nenhuma. Tá lá pra ler e sentir, e é isso. Sem as tais definições que limitam, prendem num cubículo de “é assim”, “é assado”, o famoso “tem de ser”, que mata qualquer um, qualquer coisa. Mas calma! Também não me meto em definir. Minha visão tem lá um quê de abstração como a de Drummond, e vai ver não explique nada. Só tenta, e já é suficiente tentar, sem pretender fazer instituições.

Poesia não é o que você pensa e sente… Mas talvez seja um pouco dos dois. Pensar e sentir… Imaginem um homem trabalhando em cima de uma pedra. Quer tirar algo dali. O que está nas entranhas do minério. Sua essência. Aquilo que a faz mais do que mera pedra. E para isso, ele tateia lentamente a superfície, sente a frieza da pedra, sua aspereza, as beiradas cortantes, vai sentindo e também calculando onde deve talhar e aparar e refinar… Até que não há mais pedra, mas um algo mais, uma forma que diz para quem olha: Veja! Aquilo que você acreditava invisível, aquilo que não era dizível, tudo aqui, em mim, naquilo que agora é mais do que pedra, que é mais do que palavra, aqui corporificado, aqui feito vivo.

A lógica e a emoção. Nem uma, nem outra, mas as duas entrelaçadas num só corpo. Amálgama. A perfeição aspirada pelo homem e conquistada em raros momentos de iluminação, nuns versos escritos numa página, numa pedra que agora é obra prima deixada para a posteridade. Quem sabe eternidade, enquanto a tal durar… Carlos Drummond estava certo, se é que aqueles versos de mestre para pupilo, sejam mesmo seus. Se não são, agradeço ao feliz anônimo pela acertividade de expressão. Sendo ou não Drummond, há ali o olhar de um poeta. Nem o que pensa, nem o que sente, mas para além, muito além das coisas fechadas e certas…

Rafael Canhestro

Critica até a própria sombra, mas ainda consegue ser um cara legal (ou pelo menos acha que é). Nas horas vagas corre atrás de coelhos no país das maravilhas e vez por outra se perde por lá e demora um bocado para voltar.